Nós não somos “mulheres na ciência” – somos cientistas

Bom dia!!!

Espero que esteja tudo bem.

Uma amiga partilhou este artigo que achei bastante interessante.

O artigo está em inglês mas tentei traduzir.

“Em dezembro passado, Donna Strickland se tornou a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel de Física em 55 anos. Hoje, no Dia Internacional das Mulheres e das Raparigas na Ciência, é mais importante do que nunca celebrar a conquista de Donna.

Mas podemos imaginar um mundo em que as manchetes recentes foram redigidas de forma diferente? E se, em vez disso, fosse vista como uma “mulher”, Donna seria simplesmente descrita como uma excelente cientista? Eu gostaria que o gênero dela fosse irrelevante, que não precisava ser mencionado de forma alguma – mas em dias como hoje, devia ser.

Como líder feminina dentro de uma empresa global baseada na ciência, saúdo a celebração anual com emoções contraditórias. Embora devamos estar orgulhosos do nosso progresso e continuar a capacitar as mulheres ao nosso redor, a nossa fascinação pela “feminilidade” dos nossos actuais e futuros cientistas destaca como ainda temos um longo caminho a percorrer para acabar com a lacuna de gênero na ciência.

O teto de vidro da ciência

Desde o estabelecimento dos Prêmios Nobel em 1901, houve apenas 20 Laureados Femininos em Física, Química e Medicina – o equivalente a apenas 3,3% do total de Laureados nestas disciplinas científicas. Este número é preocupante – tanto porque destaca que um vasto conjunto de talentos em potencial que já passou inexplorado, como porque sublinha que as jovens cientistas enfrentam maiores desafios no seu desenvolvimento.

Repetidas vezes, estudos mostram que as mulheres têm muito menos probabilidade de trabalhar em campos científicos após a graduação do que os seus colegas do sexo masculino, e têm maior probabilidade de enfrentar obstáculos no seu caminho para o sucesso. Para as meninas e jovens que desejam seguir uma carreira científica, digo isto: seja corajosa nas suas convicções e corajosa nas suas ambições. Precisamos da sua contribuição.

Na minha empresa, a DSM – por meio de programas de divulgação, campanhas internas de conscientização on-line e participação em conferências sobre diversidade – estamos a trabalhar duro para promover a igualdade de gênero e melhorar a diversidade da nossa força de trabalho. Entre outras metas que nos propusemos, pretendemos aumentar a representação das mulheres ao nível executivo de 17% em 2017 para 25% até 2020.

Construindo um futuro equilibrado

Mas não se trata apenas de obter números. Trata-se de promover uma cultura inclusiva em que mulheres e homens se sintam à vontade para oferecer as suas ideias e opiniões. Trata-se de criar espaço para uma gama diversificada de visões que questionam, exploram e constroem o futuro da ciência e da tecnologia.

Eu sonho com um futuro onde é mais fácil para as mulheres se tornarem grandes cientistas. Um futuro em que a palavra “mulher” não é a primeira coisa mencionada numa manchete; em que nós gritamos mais alto sobre as idéias de uma cientista do que sobre o gênero dela; em que o homem e a perspectiva de uma mulher são igualmente importantes, e podemos trabalhar para promover a ciência – e a sociedade – juntos.

Eu elogio Donna Strickland por ter sido a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel de Física em 55 anos? Sem dúvida. Eu acho importante mencionar que ela é uma mulher? Neste dia sim. Mas, acima de tudo, eu admiro Donna Strickland por sua inteligência, seu talento e sua capacidade de trabalhar duro no que ama.”

Texto adaptado para portugues de:

Helen Mets
Presidente da Resins & Functional Materials at Royal DSM

https://www.linkedin.com/in/helen-mets-b50162a/

Link para a artigo https://www.linkedin.com/pulse/were-women-science-scientists-helen-mets/

Hoje é o meu aniversário!!!😍🎂

Bom dia!!! Hoje é o meu aniversário! Fui actualizada para a versão 3.8! 🤗

Falando na minha idade…
Porque é que se diz que as mulheres não podem dizer as suas idades? Que fica mal perguntar a uma senhora a sua idade, etc…

Será que tem a ver com o “escudo” que a sociedade e certas mulheres criam para proteger os seus medos e preconceitos? Terá a ver com a pressão que a sociedade cria naquilo que seria o ideial para a idade em termos de nível académico, profissão, estado civil, maternidade, fisionomia, etc?

Qual é a sua percepção sobre este assunto?

Enquanto isso, o meu desejo para este dia 14 de Fevereiro, é que dê um abraço:

– a vida,
– a si mesmo,
– ao seu corpo,
– a sua saúde,
– ao seu parceir@,
– a sua família,
– aos seus sonhos,
– ao diálogo,
– a alguém,
– ao seu tempo de lazer,
– a sua profissão,
– aos seus estudos,
– a sua liberdade,
– a paciência,
– a bondade,
– a honestidade,
– a sua coragem,
– a sua determinação,
– ao seu foco,
– ao amor…

E por último, mas não menos importante…

CIÊNCIA!💪🏾

Feliz dia do amor!❤

O que levo na minha mala?…

Bom dia!

Ainda na senda da comemoração do dia Internacional da Mulher e Rapariga na Ciência partilho este vídeo.

Está em inglês. De forma resumida, o vídeo fala do que uma cientista leva na sua mala e no fim fala da sua pesquisa durante o seu mestrado e doutoramento.

Ela mostra que apesar de ser cientista a sua parte feminina não se dilui.

Por favor, vejam o víde no link abaixo:

https://youtu.be/yAbiX7uE0Os

http://connectingafricanwomeninstem.org/meet-nseabasi-etim/

Já sou médica! … e agora?

Bom dia!!!!

Espero que estejam tod@s bem!

Mais uma vez agradeço pelos vossos comentários e sugestões para melhorar o blog!

Hoje é o dia Internacional de Mulheres e Raparigas na Ciência – 11 de Fevereiro! Para celebrar convosco este dia, vou falar sobre o início da minha carreira, depois vou partilhar um pequeno texto que adaptei de inglês para português e alguns comentários de um amigo neste âmbito- para reflexão.

Indo ao início da minha carreira…

Voltando um bocado atrás, no quinto ano do meu curso de medicina, tive um momento não muito bom… Pela primeira vez na vida comecei a duvidar do meu sonho de infância. Sim, o sonho de ser médica!

Então, o que aconteceu? Na altura, na faculdade onde estudei, a partir do segundo ano começávamos a interagir com pacientes nos centros de saúde, maioritariamente peri-urbanos, e fazíamos seguimento da saúde de uma comunidade nas proximidades da faculdade. No quarto ano já atendíamos pacientes na clínica da faculdade, a partir do quinto ano fazíamos estágio num hospital central e no sexto ano também fazíamos estágio rural. Este tempo de interacção com pacientes e com a comunidade foi um momento maravilhoso para mim, sendo que estava mais próxima de concretizar o meu sonho! 🧐

Mas, durante o meu quinto ano, nas férias semestrais, chamei aos meus pais para conversar – na casa dos meus pais, assunto sério se tratava na sala de visitas! 😁 Nos sentamos e fui directa ao assunto: mãe, pai, já não quero mais continuar com o curso de medicina!!! Se eu pudesse ler a quantidade de palavras que passaram pela cabeça dos meus pais… Mas tudo que lhes saiu – e em coro – foi: O QUÊ!!! 😅 Então começo a explicar: isto não era bem o que eu pensava… Entrar numa enfermaria e ver três doentes na mesma cama, em colchões entre as camas, nos corredores dentro dos quartos e em colchões fora dos quartos?… Hospitais com falta de medicamentos essenciais, onde as vezes tínhamos que usar antibióticos mais caros porque não tínhamos os mais baratos? Onde o paciente é internado por malária e depois tem de passar a noite toda a matar mosquitos?… e outras muitas coisas, que muitos de nós conhecemos… Os meus pais se comoveram com o que relatei por cerca de 30 minutos e no fim disseram: está bem. Termina o curso e depois vais decidir. Tu já estás no quinto ano, não podes desistir agora! Eu aceitei o desafio! 💪🏾

O que relatei acima, aconteceu por causa da percepção que tinha sobre ser médic@. Para mim – e para muitos – ser médic@ é apenas trabalhar numa unidade sanitária e ver doentes. Na minha mente, tinha apenas uma alternativa, terminar o curso de medicina e ir apresentar-me ao Ministério de Saúde para saber em que distrito e em que unidade sanitária seria colocada. Isso é o que a maioria do pessoal de saúde faz. Mas, no sexto ano da minha formação, eu e três colegas do curso fomos informados que haviam quatro vagas a serem preenchidas na faculdade onde trabalhamos até hoje. Ainda não tinha noção do que isso implicava, mas pelo-menos comecei a ver que havia outras alternativas após a conclusão da licenciatura em medicina. Nós aceitamos o desafio, mas ainda tínhamos a missão de terminar o curso!

Depois de terminarmos o curso, voltamos a Maputo e entramos em contacto com a faculdade onde íamos trabalhar e nos informaram que tínhamos que aguardar pelos procedimentos administrativos. Nisto, qual não foi o nosso espanto quando fomos solicitados pelo Ministério da Saúde! 😲. Ficamos nesse dilema – sem trabalhar e sem saber para onde íamos – cerca de sete meses. Por fim, ficamos na faculdade.

Mais tarde percebi que a outra opção após a conclusão da licenciatura seria a de trabalhar numa instituição de pesquisa. Mas há muitas outras saídas para a área de medicina dependendo também da especialidade que fazemos depois.

Lembro-me que frequentemente devo responder a seguinte pergunta: porquê és médica e não trabalhas no hospital. A resposta está muito ligada ao desencorajamento que tive no quinto ano da licenciatura. Eu prefiro dar aulas para ensinar aos estudantes como ser um médico que se preocupa com a comunidade e com a promoção de saúde; e buscar evidências para saber o que leva a que tenhamos as enfermarias cheias, falta de medicamentos, as comunidades a não acatarem as actividades de promoção de saúde, etc., e influenciar politicas promovendo a saúde. A ideia é que prefiro fazer o melhor para prevenir que tenhamos pessoas nas unidades sanitárias ou mesmo doentes nas suas casas ou comunidades.

Só para vos dar uma ideia, para além de ser docente universitária, sou pesquisadora e trabalhei em dois centros de saúde e um hospital geral.

Bem, esta foi a minha história relativamente ao início da minha carreia na academia. Gostaria de partilhar a sua experiência? Pode fazê-lo aqui se se sentir confortável ou pode me contactar para partilhar algo que não se sinta confortável em fazer em público.

Eis o que diz a ONUmulheres no dia de hoje:

“Menos de 30 por cento dos pesquisadores em todo o mundo são mulheres. Com muito poucas mulheres em cargos de decisão e com empregos bem pagos, na área dos STEM, a lacuna de género em STEM tem profundas implicações para o futuro da economia global. Por exemplo, as mulheres podem conseguir apenas um novo trabalho na área de STEM por cada 20 perdas de emprego, em contraste com os homens, que conseguem um emprego na área de STEM para cada quatro empregos perdidos. Políticas aperfeiçoadas de recrutamento, de retenção e promoção, assim como aprendizagem contínua e qualificação para as mulheres, podem ajudar muito a diminuir essa lacuna.” http://www.unwomen.org/en/news/in-focus/international-day-of-women-and-girls-in-science#social

Globalmente, a inscricao de estudantes do sexo feminino é particularmente baixa em TIC (3%), ciências naturais, matemática e estatística (5%) e em engenharia, sector industrial e construção (8%). http://www.un.org/en/events/women-and-girls-in-science-day/

Ainda no âmbito da celebração do dia Internacional de Mulheres e Raparigas na Ciência, coloco um pequeno debate que houve na semana passada num dos grupos de WhatsApp em que faço parte.  O debate surgiu porque eu os convidava para seguirem as minhas publicações neste blog e um amigo escreveu:

“A mesmice de sempre, os homens em terceiro plano…

Eu repondi: nunca! Aqui falo de números! Os números é que me incentivam a criar o blog!!!

Encurtando o debate, outro amigo meu, o Vidhane, disse o seguinte:

A “luta” por igualdade não é a do homem. É da mulher…infelizmente. O que a própria mulher ainda não percebeu, é que ela não quer igualdade, nem oportunidade, nem qualquer outra coisa. Ela quer valorização do “ser-mulher”…

Mas faz a luta de forma contraprodutiva. Há uma luta velada promovida pelas mulheres/feministas…em que elas são suas próprias inimigas…e nem se apercebem. A mulher é o centro da humanidade. Mas na sociedade masculinizada e materialista (que elas, activamente ajudam a construir), esse papel natural e até social (gerar, gerir e nutrir vida) não é devidamente valorizado. Portanto ela desvia-se do real objectivo – valorizar o que é – para o supérfluo – valorizar o que pode fazer/ter, ou igualar-se ao homem…

O “aconselhável” seria que, ao invés de se auto-promover na esfera de actuação social do homem, ela se valorizasse pelo que é – uma rainha natural. Ninguém vai valorizar suficientemente a mulher. Nada do que for feito para enaltece-la (exalta-la é a palavra do dia) será suficiente com o passar do tempo…porque ela não vê/percebe o seu próprio valor. Precisa de um espelho, de alguém que lhe diga das suas virtudes. E esse alguém será sempre o “próximo-mais-admirado-por-ela. Só quando ela amar-se pelo que é, ela ficará independente do que acontece ao seu redor – como acontece com as figuras centrais. E terminando ele disse: Este tema é longo!

Qual é o vosso sentimento relativamente ao que diz a ONU na citação que coloquei sobre o dia que se celebra hoje e o texto do meuamigo Vidhane Vidhane, obrigada por me autorizares a colocar as tuas palavras no meu blog.

Nas próximas publicações vou falar do que implica ser mulher na academia.

Até a próxima!

Meu percurso na formação académica… Escolhi Medicina!!!

Bom dia!!!

Para Moçambique, espero que tenham passado bem o feriado e final de semana longo (Dia 3 de Fevereiro, dia dos Heróis Moçambicanos) e para a Matola, continuação de bom e super final de semana longo neste dia da Matola!!!

Ufff… passei ao primeiro teste!!!!! Que alivio!!! A minha primeira publicação no blog foi um sucesso graças aos vossos comentários e suporte!!! Muito obrigada à tod@s!!!

Recebi as vossas sugestões e recomendações, e farei o possível para melhorar. Peço que continuem a ajudar-me nesta caminhada e que contribuam com perceções, sugestões, dúvidas, e até medos e incertezas, pois pretendo crescer com o vosso apoio e espero poder ajudar alguém a crescer.

Indo ao tema…

Bem, segundo relatos da família 😊, com apenas dois anos de idade decidi que queria ser médica!!! Porquê? Não sei…, mas talvez o facto de ter avó – já falecida – enfermeira, três tios médicos (duas do sexo feminino e um do sexo masculino) possa ter influenciado…

Mas como foi o percurso?

Comecei a escola primária com 5 anos de idade. Ainda não tinha a dimensão do que era necessário para seguir o curso de Medicina – e que devia seguir a área de ciências – mas graças a Deus sempre fui de boas notas… até que… na décima segunda classe – até onde vai o ensino pré-universitário em Moçambique – levei com uma faca no peito!!! Minha primeira deceção na vida académica!!! Reprovei a matemática ☹!!! O que teria acontecido comigo?! Reprovei a disciplina que mais detesto!!! 😭

Mas voltando atrás… detesto matemática? 🤔. Vou vos contar o que aconteceu…

A minha professora de matemática era muito conhecida na época… para ser sincera, não me recordo do nome dela, mas lembro-me bem dela e também de um filho dela que estudava na mesma escola secundária. Lembro-me da forma característica dela de falar e de se mover na sala de aulas.

Alguns meses depois, percebi que a turma de por aí 50 alunos – ou mais – estava dividida em duas partes: uma de um grupo de 4 alunas – lembro-me muito bem delas, com algumas até agora me comunico – e outra constituída pelo resto da turma! E adivinhem em que grupo estava? …⏱️ Isso, no grupo “resto da turma”!! 😧. A aula de matemática era direccionada para o grupo de 4 alunas … Nós outros, com ou sem dúvidas, lá estávamos a ouvir a aula para as 4!!

Recordo-me muito bem de repetidas vezes a professora se dirigir a mim e dizer: Beatriz, tu vais CHUMBAR! E eu a perguntar-me: mas porquê vou chumbar, estamos no início do ano, ainda não fizemos nenhum teste… será que ela é vidente? 🤨. Vidente ou não, foi o que aconteceu. A primeira vez que reprovo na vida foi apenas a disciplina de matemática!!

E agora? Bem, a etapa seguinte já devem imaginar… Tinha 17 anos, reprovei a “disciplina que mais detesto” e estou na fase pré-adulta… Meus amig@s… Entrei numa depressão que nem quero lembrar… estava revoltada com todo o mundo!

Os mais pais tentaram convencer-me a inscrever para o ano seguinte e fazer a disciplina como aluna interna para ver se ia com boa nota para o exame. Eu respondi: ir todos os dias à escola para ter aulas de uma disciplina que detesto e com aquela professora? Prefiro ficar em casa!!!! E foi mesmo assim, fiquei um ano em casa, deprimida, revoltada com todo o mundo. Infelizmente quem pagou por isso foram os meus pais e familiares mais próximos! Vai neste momento o meu grande pedido de desculpas em público… 😔.

Foi um ano de muita rebeldia… nesse ano, conheci pessoas que ficaram meus amigos para a vida inteira – uma do sexo feminino e dois do sexo masculino – acho que de certa forma todos nós estávamos passando por um momento de descoberta interna e muitas lutas interiores. Andávamos juntos o dia todo – nenhum de nós estava a estudar na altura por motivos diferentes.

A convite de um primo meu, tornei-me modelo – top model – e depois convidei aos meus três amigos para também o serem, e fomos chamando mais gente para o grupo. Aquilo passou a ser “vida de modelo”: ensaios, desfiles de moda, festas, etc… Sentíamo-nos “luzes da ribalta” 🍸– coisa que combinava bem com a fase que estávamos a passar. Eu agradeço que nenhum de nós se meteu em coisas ilícitas, se bem que fomos tentados de todas as formas possíveis e imagináveis por várias pessoas e ambientes em que andávamos.

No final desse ano, decidi me separar do grupo e ir para a Beira para me preparar para o exame de matemática e depois o exame de admissão ao ensino superior – vivia lá uma das minhas tias médicas que falei logo no início, que admiro e que é uma grande influencia para o que sou profissionalmente. Vão ouvir falar muito dela nas minhas publicações 😅 Infelizmente, depois de algumas semanas decidi voltar à Maputo… não sei explicar porquê, talvez tenha sido ainda influencia do momento que estava a passar. Mas voltei, preparei-me para o exame de matemática e passei!

Próximo passo, fazer o exame de admissão para o curso dos meus sonhos, MEDICINA!!! Yay!!!

Preparei-me para o exame de admissão com o mesmo professor que me ajudou no exame de matemática e concorri para Medicina na universidade pública mais antiga de Moçambique. A minha média para o exame foi de 13 em 20 valores, mas não foi suficiente para entrar para o curso. Nisto, a minha tia médica que vivia na Beira liga para a minha mãe e diz que vai se abrir uma Faculdade de Medicina privada na Beira e que o ensino seria bom. Perguntou a minha mãe se achava se eu estaria interessada. A minha mãe disse logo a ela para falar comigo – já que estava rebelde 🙃 – sem hesitar aceitei a proposta. Essa faculdade tem o ano propedêutico ou ano zero, onde todos os estudantes que se inscrevem entram e são selecionados durante o um ano tendo em conta as vagas na faculdade e a nota mínima – que era de 12 valores – para passar as disciplinas de português, matemática, física, química, biologia, informática e inglês. A minha turma era a primeira do curso. Entramos no ano zero cerca de 60 estudantes, passamos para o primeiro ano cerca de 30 e apenas 16 graduamos como o primeiro grupo do curso de Medicina daquela faculdade.

Imaginem como me senti que havia matemática na lista das disciplinas!!!! Entrei em pânico!!! Lembro-me de ter ido a procura do professor de matemática e pedir para falar com ele antes mesmo do início das aulas. Eu disse: professor, gostaria de falar consigo. Ele muito calmo e sereno disse: sim?… E eu: professor, eu tenho um problema com a matemática. Eu sou péssima á sua disciplina e para ser sincera não gosto muito dela… O professor continuou sereno e disse: Beatriz, eu vou te mostrar que és boa a matemática!!! E não é que me mostrou? Fui uma das melhores alunas da turma!!!! 😊 – professor Vumba, se estiver a ver esta publicação, muito obrigada por tirar este peso de mim!!! Conseguem ver a diferença entre este professor e a que tive na décima segunda classe?

O primeiro ano do curso correu muito bem. Estava em casa dos meus tios e com os meus primos mais novos. Mas, no final desse ano recebemos a informação que os meus tios tinham que voltar a Maputo por questões profissionais e vi-me a ter que me virar numa terra que acabava de começar a conhecer – apesar de já ter ido lá várias vezes passar as férias com os meus tios e primos, anteriormente.

Tinha 19 anos e fui à procura de uma casa para alugar… que martírio!!! Lá encontrei a casa. Parecia que estava tudo bem, mas com o andar do tempo comecei a ver os inúmeros problemas que tinha a casa! Fui enganada!!! Rancho por fazer, canalizador, carpinteiro, etc. para tratar da casa, e ainda por cima, ter que ter boas notas na faculdade. Foi horrível, entrei noutra depressão, chorava todos os dias que falava com os meus pais.

Passados alguns meses, uma amiga de Maputo que também estava lá a estudar, sugeriu que dividíssemos as despesas numa casa que elas estavam a viver. Desde lá, passamos a ser 6 meninas numa casa tipo três onde dormiam duas no mesmo quarto e dividamos as e tarefas. Eramos todas estudantes universitárias nos cursos de medicina e de economia. A adaptação também não foi fácil, e a choradeira para os meus pais continuava…. Recordo-me que numa das férias o meu pai disse que se eu quisesse podia voltar para Maputo. Eu respondi: só regresso depois de terminar!!! Foi uma decisão que me custou caro, já que também o dinheiro que recebia da minha mãe para as despesas da casa e dos estudos – o meu pai estava desempregado na altura – não era suficiente. Era o que ela podia dar…. Comer, viver e estudar, era um grande desafio para mim e para as minhas colegas.

Felizmente, no segundo ou terceiro ano da Faculdade, uma das nossas professoras perguntou se não gostaria de fazer parte de um núcleo de combate ao HIV que ia ser criado na faculdade. Aceitei a proposta. Começamos 5 e hoje só oiço falar de coisas boas do núcleo que agora tem vários membros. Por causa do nosso desempenho nas actividades do núcleo, foi-nos oferecida uma bolsa de estudos que pagava as propinas. Sendo assim, só precisava de dinheiro para as outras despesas. Os desafios financeiros não melhoraram muito, mas fiquei feliz por poder aliviar a minha mãe. Terminei o curso com essa bolsa, foi a primeira bolsa de estudos que recebi! E agradeço bastante!

Durante o curso fui convidada a dar aulas aos estudantes dos primeiros anos do curso.

Bem, este é o resumo do meu percurso até a minha licenciatura em Medicina. Espero que possa motivar a alguém! E como sempre, peço cometários, recomendações e sugestões.

Obrigada pela atenção!

Mais histórias nas próximas publicações!

Quem sou e porquê crio este blog?

Boa noite às tod@s! Espero que esteja tudo bem. Crio e escrevo o meu primeiro blog neste lindo dia dos Heróis Moçambicanos!!! Esta é a minha primeira experiência com blogs! Peço a tod@s vós que me ajudem nesta jornada!

Então vamos lá!

Criei este blog com a intenção de motivar mais mulheres a participarem em cursos de Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemáticas, os chamados STEM em inglês. Crio o blog em português, porque em todas as áreas, há mais informação em inglês que em português.

Sendo o blog criado em português, creio que deixarei de fora muitas mais mulheres africanas que estão nas áreas de ciências e que, de certa forma, podem ou podiam estar interessadas em informações que possam passar pelo blog. Corro esse risco, mas a ideia é que possamos promover mais o nosso português – mas não nos esquecendo que parte de informação que irei partilhar poderá também estar em inglês – que é a outra língua que domino.

Passando a parte em que me apresento 😉

Chamo-me Beatriz Manuel Chongo, e uso o meu nome de solteira para questões científicas, Beatriz Manuel, porque já tinha publicações quando era solteira – um dia vos explico o desafio que foi para convencer ao meu marido para manter o nome de solteira 😊.

Sou cristã evangélica, esposa e mãe, a menina mais velha da família, tenho um irmão, sou moçambicana e licenciada em Medicina em Moçambique 😊.

Academicamente e profissionalmente tenho Mestrado Internacional em Educação de Profissionais de Saúde e estou no quarto ano de doutoramento em Ciências da Saúde e Estudos de Educação. No meu mestrado investiguei as estratégias de abordagem de formação de recursos humanos na área de saúde para atender pessoas vivendo com HIV. O objectivo da minha investigação de doutoramento é identificar formas de melhorar os curricula de medicina sobre a violência perpetrada pelo parceiro íntimo (violência entre casais, namorados, amantes, etc. e ex parceiros), como forma de melhorar a prevenção e assistência médica em Moçambique.

Faço pesquisa nas áreas de Educação Médica, Saúde Familiar e Comunitária, Saúde Pública, Saúde Sexual e Reprodutiva, HIV / SIDA, temáticas de gênero e Evidência Baseada em Saúde para influenciar políticas – resumindo, fazer pesquisa para que haja mudanças na forma como são tratados os assuntos de saúde para melhorar a saúde população).

Trabalho como docente e investigadora numa instituição de ensino superior em Moçambique.

Nos meus tempos livres gosto mais de e estar com a minha família, de cozinhar e fazer fotografias gastronómicas – vejam o meu Instagram @chonguile – entre outros.

Dedico-me a divulgar oportunidades desde 2013 e criei o grupo Google “Bolsas e Oportunidades”, para divulgar bolsas de estudos e outras oportunidades, onde qualquer pessoa pode fazer parte me enviando o seu e-mail.

Por hoje é tudo!

Continuem me seguindo para saber como me tenho moldado como uma mulher africana na área de ciências!

Obrigada pela atenção!