O início da minha carreira científica…

Meu primeiro artigo cientifico.

Boa tarde amig@s!

Já não escrevo há quase duas semanas… Uff… agora que comecei com o blog já percebo o desafio que muita gente tem em continuar a publicar. Associar blog com outras actividades não é uma tarefa fácil, mas é gratificante quando vemos que temos leitores simpáticos como vocês… muito obrigada pelo carinho!

Hoje vou escrever sobre como comecei a fazer pesquisa e escrever artigos científicos.

Tudo começou no inicio da minha carreira profissional. Creio que foi dois anos apos o inico da carreira. Conforme vos contei antes, tive um início de carreira bastante turbulento. Mas, apesar de tudo, conheci pessoas que contribuíram muito para quem sou hoje. Umas contribuíram “negativamente” mas me fazendo uma pessoa mais segura, confiante em mim mesma, aprendi também quando devo falar ou responder. Esta última característica creio que foi a mais importante para mim.

Os que contribuíram positivamente, tenho-os como parceiros até hoje e têm me ajudando bastante na minha carreira. Um deles, é um Professor Catedrático que já escreveu vários artigos científicos e já se reformou. Conheci-o no âmbito do trabalho que eu fazia no início da minha carreira. Observando o dia-a-dia do meu serviço e as minhas tarefas, ele sugeriu que escrevêssemos um artigo cientifico para que fosse apresentado numa conferência fora do país. Bem, na altura nunca tinha escrito nenhum artigo cientifico e nunca tinha participado como oradora numa conferência internacional.

O titulo do meu primeiro artigo era muito polémico “Moçambique: Modelo de aprendizagem baseado em projectos/problemas. Acabar com as aulas para que os alunos aprendam?”. Parecia mesmo uma provocação e que estava a ir contra aquilo que eu defendia como minha função. Eu promovia a aprendizagem baseada em solução de problemas… Mas a ideia do artigo era tentar perceber se estávamos a fazer a coisa certa usando a experiência da nossa instituição e de outras dentro e fora do país. Apesar de estar bastante nervosa e sozinha, a apresentação correu melhor que as minhas expectativas.

Aprendi muito com os dois docentes sénior. Aprendi que os artigos científicos podem ser escritos sobre vários assuntos, até sobre experiências do nosso dia-a-dia. Também aprendi a procurar literatura para o enquadramento teórico, ou seja, ver o que outros pesquisadores já escreveram sobre o mesmo que estou a escrever, a como organizar um artigo cientifico e que palavras usar ou não para uma escrita cientifica. Através do evento em que participei, conheci pessoas que trabalhavam na mesma área que eu e que tiveram algumas das dificuldades que eu tinha. Alguns sugeriram como os ultrapassar.

Foi assim que começou a minha paixão pela escrita cientifica…

Muito obrigada pela vossa atenção. Agradeço comentários, perguntas e experiências.

Até a próxima publicação.

Eu sou Sandra Manuel… acho que é o momento de nós revisitarmos o conceito de universidade, de fazer academia…

Eu sou Sandra Manuel, sou antropóloga, faço pesquisa e lecciono em questões de género e sexualidade.


Eu não sei se já cheguei ao que eu ambiciono, se já cheguei ao fim da minha carreira. Acho que a minha carreira é uma trajectória com… não chamaria quebras … não sei se o meu sonho era ser antropóloga. Gosto muito do que faço, tenho muito prazer no que faço, mas agora estou numa fase em que quero transformar o meu conhecimento antropológico em algo que me dá mais prazer como individuo.

Estou um pouco desiludida com o mundo académico, na situação actual que está. Não é especialmente sobre Moçambique. Acho que é o momento de nós revisitarmos o conceito de universidade, de fazer academia. Para que fazemos e qual é o nosso fim? E só… quer dizer, sim descobrimos conhecimento novo, mas o que é que nós fazemos com esse conhecimento? Fica só entre nós nas nossas conferências científicas, nos artigos que publicamos, nos livros que publicamos… em que medida ser moçambicana com todos os desafios que estes país tem… com todos os desafios para o futuro do país, em que medida podemos ser mais proactivos, mais criativos na forma como usamos o nosso conhecimento? E acho que o meu desafio agora é esse. Estou a abrir uma nova fase em que procuro fazer coisas diferentes com todo o conhecimento que já acumulei.

Então queria fazer mais pesquisa, temos muitos constrangimentos para poder fazer, na universidade, mas queria fazer algo que tenho uma paixão muito grade. Eu costumo dizer que as minhas três paixões são, sexo porque eu estudo sexualidade, comida porque eu gosto muito de sabores, de criar no espaço da culinária e moda, porque eu sempre fiz artigos de bijutaria, brincos, colares, então tudo isso… eu consigo ver uma ligação entre as três coisas e uma ligação antropológica entre isso. Então estou a tentar criar um espaço … a minha parte mais empreendedora que ainda esta por vir, onde eu consigo juntar estas três coisas com um cunho antropológico. Portanto ainda tenho um desfio até chegar lá. Mas acho que já conquistei muitas coisas. Já fiz um doutoramento em antropologia, publiquei vários artigos, continuo a trabalhar como professora, dando aulas, a fazer pesquisa, coordeno um grupo de jovens lideres, projecto designado Young Women Leaders, que faz a capacitação de jovens mulher no ensino universitário, para questões de saúde sexual e direitos reprodutivos.

E então, como cheguei lá, quais foram os desafios que eu tive para chegar?… Bem, confesso que eu tive muito apoio, acho que nesse sentido, desde apoio familiar, tanto apoio psicológico, moral, financeiro, para perseguir a minha carreira académica em Moçambique, na África do Sul, na Inglaterra, tive muito apoio nesse sentido. Também tive as minhas próprias conquistas, me candidatei para conseguir uma bolsa de estudos, mas muitas das ideias sobre pensar em ter uma bolsa de estudos veio de conversas com amigos, de conversas com outros familiares, ou sugestões de conhecidos. Então nesse sentido sinto que tive apoio. Uma coisa que gostaria de apelar as pessoas que não tentem fazer tudo sozinhos, porque as pessoas sabem, há pessoas que conhecem… muitas vezes temos receio de nos aproximarmos mas no máximo que podemos ouvir é não. E não, nós já vínhamos com esse não, a pessoa não muda a situação que está e existe uma possibilidade muito grande de a pessoa ter uma resposta diferente e mudar completamente a forma como vemos o mundo e as oportunidades que nos são expostas.
Em termos práticos, talvez… desafios… um dos principais desafios que eu sinto que tive e tenho é lidar com o sistema, o nosso sistema é muito burocrático. O nosso sistema não está preparado para facilitar a vida do cidadão. Então desde experiências em meter bolsas de estudo e o processo ficar parado no ministério um ano, e informarem: mas nós já concedemos a bolsa. O que se passa? Porque é que não vem (o/a estudante)? E ter que ir atrás do ministério para procurar saber o que se passa… ”mas ahhh já passou o prazo”… então ter que negociar para ir no ano seguinte… quer dizer esses são… a maior parte dos meus desafios tem a ver com o que eu passei com o sistema e até o momento sinto essa dificuldade. Acho que isso deve ser uma das piores coisas que nós temos no nosso contexto. Eu sinto que há muita garra, muita ambição do lado das pessoas, mas as estruturas estavam… não digo que todas, porque há outros sectores que não são assim, há outras pessoas nos sectores que não são assim, mas na generalidade da forma como os sistemas funcionam apoiam muito pouco. Hoje ainda bem que temos a internet que nos ajuda a ter informação mas eu ainda sou do tempo em que para ter bolsas de estudo nós tínhamos que ir ver as listas que existiam no ministério. O que existe? Procurar saber nas embaixadas… mas víamos na embaixada e ainda tínhamos que meter o documento no ministério. Aquilo era muito difícil. Acho que quando eu reflicto um dos principais desafios que tive foi esse.

O outro… acho que tive alguns desafios de integração. Sempre fiz o ensino primário, o ensino secundário até o bacharelato em Moçambique. Quando eu fui estudar na África do Sul, para a licenciatura e mestrado senti que tive… bom, talvez sejam desafios comuns, de estar num novo espaço, numa nova cultura e principalmente cultura académica. Também as expectativas eram diferentes. Eu quando sai (de Moçambique) achava que era uma estudantes brilhante… e tinha umas boas notas… Mas então foi uma frustração muito grande chegar lá e dizer: humm afinal os máximos lá de casa não são necessariamente os máximos do mundo. Então ajudou-me a crescer, ajudou-me a ver o mundo numa outra expectativa. Custou … não digo que não… custou a adaptar-me a isso. Talvez uma das coisas que isso fez em mim e que eu ainda preciso combater.. Isto criou em mim um sentido de dúvida… antes eu era muito mais… embora vivesse com alguma dúvida… mas era muito mais confiante em mim, acho que tinha muito mais crença nas coisas que fazia. Hoje eu acho que penso muitas vezes antes de tomar uma decisão por causa dessa experiência, esse choque eu encontrei e depois voltei a encontrar quando fui a Inglaterra e fiquei: uhh, ok… então em alguns momentos tenho dúvida, numa coisa que eu sinto, para escrever, quando eu tenho que escrever um artigo… neste momento tenho um artigo que escrevi em Junho do ano passado, está escrito, está completo, mas eu ainda não enviei para ninguém, porque estou a perguntar-me, será? … esta virgula, este ponto, este argumento… então isso para mim é mau… e foi um dos impactos que não me ajudou… não sei … fiquei com muita dúvida sobre as minhas capacidades embora que quando partilho com os outros dizem que esteja perfeito. Mas acho que é uma crítica interna que agora, acho que para o caso desse artigo nem me está a ajudar. Eu devia mandar e pelo-menos que a recusa viesse da revista. Mas isso é para mostrar que muitas vezes quando nós lemos os artigos as dificuldades são de nível económico, são de nível de apoio, mas também acho que é bom nós reflectirmos nas dificuldades que nós encontramos connosco próprios no processo de conhecimento, de exposição a novas realidades e que é um desafio também nós lidarmos com essas dificuldades de nos transformarmos. Acho que sim, esses seriam os meus desafios…

E como é ser mulher, mãe, esposa e profissional?

Eu sempre fui muito consciente da relação, porque desde o início da minha formação, desde que percebi o que era pesquisa, os meus tópicos tinham a ver com sexualidade, género. Então, desde o início fui muito consciente, porque eu sou filha de… o meu pai só teve meninas, e criou-nos com muita rigidez, com… criou-nos como se fossemos homens, na verdade… então, no sentido que não era muito passar as mãos nas costas, pelo contrário, “vai, alcança, prossegue” ele não fazia por nós, obrigava-nos a fazer mas em todas as esferas, então deu uma certa, firmeza.

O facto de eu ter estudado questões de género fez com que desde muito cedo eu tivesse consciência que estar com alguém, não devia em nenhum momento implicar que essa pessoa comandasse, decidisse sobre as minhas escolhas… gostar de mim é gostar dos meus sonhos, também. Gostar da pessoa que eu sou, e eu sou uma pessoa que sonha de uma determinada maneira, que sempre sonhei em não ter filhos muito cedo, sempre sonhei em estudar fora e trabalhar fora, em dar aso as oportunidades que a vida me oferecesse. E acho que por causa disso, gosto da coisa da lei atracação, muitas vezes nós atraímos o que nós sentimos. E eu acho que acabei atraindo uma pessoa que reflectia o que eu sentia, e então ai não é um desafio. É uma pessoa que me apoia muito e que também é antropólogo, ele tem uma visão partilhada nesse sentido. Então é uma pessoa que me entende perfeitamente.
Casei-me depois de fazer o doutoramento e só tive filhos depois do doutoramento. Mas desde então participo em conferências, faço retiros científicos de dois meses, três meses, e fazemos trocas do mesmo tempo que ele na carreira dele faz as suas. Ele tem capacidade de entender que aí é o espaço onde eu realizo os meus sonhos e respeita muito. Mesmo saídas nocturas, com colegas, em conferências, em seminários, somos muitos amigos, isso ajuda muito. Por acaso neste aspecto não diria que… claro que ainda tenho algum peso das questões de género que talvez seja a minha forma de reproduzir algumas coisas que eu própria critico, mas as vezes sou muito galinha, se é para ele ir para o hospital, eu também quero ir, para garantir que ele está a perceber o que o médico está a dizer. As vezes, quer dizer, essas coisas ficam inculcadas em nós mesmo estudando isso, as vezes não fazemos… não é a minha presença que vai mudar nada… então… mas não sinto necessariamente como um desafio.
Quais foram os seus desafios como mulher no ambiente académico?
No ambiente académico, talvez a minha trajectória teve uma confluência de vários aspectos. O facto de… sempre fui uma estudante que participou muito nas aulas, que fez actividades extra-curriculares, então sempre tive algum tipo de visibilidade. Mas desde o ensino secundário… então sempre fui aquela que contestava, seja crítica aos argumentos, seja crítica de posicionamentos sociais, e então penso que esta atitude me abriu portas e para os meus pares, tanto homens como mulheres. Sinto que na generalidade não fui tratada como diferente ou… sempre me senti tratada como par por colegas homens e por colegas mulheres, e também devo confessar que a na maior parte dos lugares onde trabalhei foram lugares pequenos, ciclos pequenos onde a amizade estava muito presente. Eramos grupos de amigos, que trabalhavam juntos, então é uma cultura que eu preso muito. A ideia de colegas… meus colegas do departamento de antropologia, chamamos o peixe… em que uma vez por semestre tentamos ir ao Mercado do Peixe e ficamos a tarde lá. Isso é muito importante porque nos conhecemos para além dos gabinetes e sabemos sobre as nossas famílias, criamos empatia e ouvimos desde posicionamentos políticos, familiares, e damos uma outra forma de relacionar. Então foi muito importante para a minha solidez como profissional.

Também tive… por exemplo faço assessoria ao Reitor da Universidade Eduardo Mondlane. Talvez foi o espaço mais amplo em que eu trabalhei e aí sim, posso dizer que se percebem alguns preconceitos por ser mulher e jovem. Então alguns comentários do tipo “os jovens de hoje”… cada vez que alguém faz alguma intervenção… pois não estou a falar como um jovem mas estou a falar como uma profissional com a minha experiência naquele momento… então aí… mas consigo entender as vezes como um mecanismo de defesa. Então eu acho que é muito importante termos consciência de porque é que as coisas estão a acontecer dessa maneira e daí termos a capacidade de avançar, de relevar, não nos afectar tanto e escolhemos as nossas lutas. Faço muito esse exercício em lugares que eu sei que aqui eu tenho interesse e vou para frente, não deixo que passe, mas em outros lugares… senão fico com cabelos brancos… é melhor dizer, está bom, esta luta não é para mim, o meu adversário… então acho que as lutas são para os mais jovens, para mudar o amanhã, não sei se estou preocupada com alguém que é mais velho do que eu. Acho que é uma luta inglória.

Faço alguns projectos para crianças. Eu trabalho também… sou pesquisadora associada de um instituto de pesquisa, “Caleidoscópio”, e um dos projectos que estou a desenvolver no instituto é um livro de receitas para crianças. O objectivo do livro é contar a história de Moçambique de uma forma que não se prende apenas com a história oficial que é bastante guiada por uma história política, uma história do colonialismo, da independência, e de pós-independência esses marcos para Moçambique… Moçambique é tão mais do que isso, trazermos a história social, das pessoas, então a partir da comida, a partir dos diferentes sabores, de aromas, temperos que nós temos… fazer a ligação que nós temos com a Ásia, com a Europa, mas também as diferentes ligações internas… dentro de Moçambique… o mar, o interior, e como as pessoas se relacionam, então, vamos saborear, entendo a nossa historia… é um pouco isso.

Uma coisa que eu sinto que me dá muita independência, me fortalece bastante, é que é preciso ter consciência de onde estamos, porque se nós soubermos porque que as coisas acontecem assim, nós podemos escolher aceitar o que a nossa vida seja “assim ou assado”. Mas tem que ser uma escolha informada porque eu sinto muitas vezes que as pessoas na generalidade, as mulheres especificamente, deixam-se guiar por pressões da sociedade, e muitas vezes elas nem dialogaram com elas próprias para saber se é aquilo que elas querem. Tens que casar, tens que casar aos 23 anos, logo que acabares o ensino superior tens que casar… para quem? É para mim? Eu tenho alguém com quem eu quero casar? Talvez tenha, mas essa pessoa… o que é casar? É importante que as pessoas percebam o contexto, percebam o significado de decisões que vão tomar, e decidam se as fazem ou não.

Qual é o recado que deixa para as meninas?

Eu sinto que algo que me fortalece é a sensação de passos firmes e sólidos porque muitas vezes demoram a tomar decisões mas porque tem que pensar nas multiplicidades de factores que me levam… porquê que estou a tomar uma determinada decisão? É realmente responder aos meus desejos? Ou é para agradar talvez os meus familiares ou a sociedade acha que é certo… tem que ter filhos… quando? Porquê que tem que ter, o que vai significar conviver com um ser que vai ficar sob a minha responsabilidade até pelo-menos 18 anos? Estou pronta? É isso que eu quero? Em que medida isso pode comprometer os meus sonhos? “Mas se eu não tiver não sou mulher” … mas porquê? Porque que todas as mulheres tem que ter o mesmo caminho? As pessoas são diferentes, então mulheres também entre elas são diferentes. Porque é que eu não posso adoptar, talvez quando eu tiver 40 ou 50 e achar que eu já fiz o que me apetece. Então, façam escolhas informadas e percebam porque é que vocês então a fazer essas escolhas. Contextualizem-se. Acho que isso é muito importante.

E o que acha da sorte?

Eu acho que a vida é imponderável. Muitas vezes nós achamos que podemos controlar o nosso destino e a cada dia que eu vivo mostra que isso não é possível. Façamos o melhor para termos controle, para nos armarmos, para garantir que conseguimos ter acesso ao que é possível termos acesso. Mas o caminho que muitas vezes sonhamos não é o caminho que acaba acontecendo e que eu acho que é positivo, porque nós na vida encontramos pessoas, encontramos coisas, encontramos oportunidades que podem nos guiar para novos caminhos que se abrem e podem ser uma maravilha para nós. Eu não acho que isso é sorte. Eu acho que isso, todos nós passamos por isso. Agora, aquilo que as pessoas chamam sorte… é como é que tu usas as oportunidades que te surgem? Aí é que eu acho a ideia de estar consciente, ler, perceber, conversar, estar atento, isso é que faz a diferença, mas isso não se chama sorte. Chama-se ser estratégico em algum momento, chama-se ser atrevido, não ter receios, não ter medos. Porque mais uma vez como dissemos, o máximo que pode acontecer é a pessoa dizer não, não quero, não faço, não me apetece. Mas eu vou perguntar desculpe: é coordenador desta organização? Eu tenho muito interesse, gostaria de a partir da sua organização criar um projecto. A pessoa vai dizer: não, nós não fazemos isso. Ou pode dizer: ok, venha ao meu gabinete e vamos conversar. Será que isso é sorte? Não. Estava ao meu dispor a oportunidade de eu falar com essa pessoa, eu já tinha essa ideia anterior e coloquei. Não sei se é sorte…

Sheila Miquidade… “uma pessoa de honra”…

Boa tarde! Espero que esteja tudo bem.

Hoje partilho um texto escrito por Dalton Sitoe, publicado a 09 Fevereiro 2019, sobre Sheila Miquidade, Directora de Comunicação na Vale Moçambique…

Directora de Comunicação na Vale Moçambique

Há mil e uma circunstâncias para o nascimento de um filho, e a partir de qualquer uma delas pode surgir uma pessoa de honra. Aliás, as próprias circunstâncias edificam esse ser, pois em parte o Homem é resultado das suas próprias experiências.

Ângela Maria foi criada por uma família cuja responsabilidade material, financeira e de educação era das mulheres (avô, mãe e tias). Ela cresceu na famosa Mafalala, na cidade de Maputo, um bairro rico em histórias e economicamente humilde. Aos 17 anos de idade, ela engravidou do pai da sua filha, com quem tinha, na altura, uma relação ocasional.

A adolescente viria a dar à luz a 23 de Outubro de 1978, em Maputo. Assim veio ao mundo Sheila Maria Muhamudo, e depois aos 8 anos de idade, Sheila Marisa Muhamudo Amade Miquidade, mas sobre esta parte da história falaremos melhor depois. Assim Sheila foi criada pela mãe, como a sua mãe e suas tias também tinham sido criadas apenas pelas mulheres da família.

Poucas memórias há do que terá acontecido desde à nascença aos 4 anos de idade de Sheila. Contudo, sabe-se que Ângela Maria trabalhou, durante esse período, na antiga Inter-franca, na Av. 24 de Julho, na cidade de Maputo. Mas depois, procurando formas de garantir uma vida melhor para sua filha, partiu para Portugal, por volta de1982. Foi uma aventura! Ela era uma mulher atrevida.

Em Portugal, Ângela estabeleceu-se em Odivelas, concretamente no Vale do Forno. Lá teve várias oportunidades de emprego em área de relações públicas. Alguns meses, após a sua chegada, levou a filha para ir morar com ela, quando Sheila tinha 4 anos.

Sheila Miquidade levava uma vida boa em Portugal. Não chegou a perceber carência financeira. Ela chegou a viver num apartamento de um prédio de um centro comercial em Odivelas; a mãe conseguia prover uma boa educação, estudava numa escola privada (Externato João Ratão); tinha acesso a um mundo de fantasia, dando a si, filha única todos os benefícios do seu esforço como bons brinquedos e acesso a experiências diferentes.

Sheila e a sua mãe viviam sozinhas e só poderiam contar uma com a outra. O conceito de família, pelo menos até aquela altura, era algo restrito; e família resumia-se a elas duas. Algo diferente de África, em que é alargada. E isso teve sua influência na infância de Sheila.

Vivendo apenas com a mãe, Sheila sem se aperceber ia se tornando auto-suficiente, brincava mais com bonecas e tinha uma cadela chamada Layca, que a ajudava a preencher o vazio da falta de irmãos ou família mais alargada por perto. Como elas viviam num terceiro andar, ela gostava de lançar um chinelo das escadas abaixo para que Layca fosse buscar. Essa brincadeira trazia alegria para a criança que crescia entre um mundo de criança e de adulto, apesar de ter amigos com quem brincar.

As suas melhores amigas foram Patrícia Monteiro, Carla e Jamila. Com elas conversava e brincava. Mas também tinha amigos e certa vez, Sheila foi brincar e a mãe procurou-lhe tanto e não a encontrou. Ela apareceu no final do dia, de mãos dadas com um amigo loirinho. A mãe apanhou um susto, mas depois percebeu que eram coisas da idade, pois Sheila era tudo na vida de Ângela Maria, sua mãe.

Amade Miquidade é o pai de Sheila. Ainda muito jovem iniciou a carreira como militar e foi ajudante de campo do primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel. Ele soube que Ângela Maria estava grávida seis meses depois. A primeira atitude dele foi informar ao pai dele e ao seu falecido irmão Adamito. Quando Sheila nasceu seu pai apresentou-lhe aos seus pais e irmãos. Sheila foi bem acolhida.

Ângela tomaria depois a filha, rumando para Portugal, sem que tivesse sido registada pelo pai devido as diversas circunstâncias do seu relacionamento com o pai de Sheila.

Aos oito anos de idade, Amade, depois de tentativas de aproximação foi atrás delas em Portugal para registar a sua filha e dar continuidade a aquele que seria um dos actos mais importantes de vida da Sheila, ter o reconhecimento emocional e oficial do pai. Amade registou Sheila no Consulado de Moçambique, em Portugal. Já era vontade da mãe de Sheila que a filha se reencontrasse com o pai.

Foi com esse registo que Sheila Maria Muhamudo passou a chamar-se Sheila Marisa Muhamudo Amade Miquidade.

Este reencontro foi muito desejado e cresceu no coração de Sheila a vontade de querer viver com o pai. Imaginava como seria viver em Moçambique, ao lado dos seus irmãos e com o seu pai. E aos 12 anos, veio para Moçambique passar férias em casa do pai.

O pai tinha boas condições de vida, estava ligado ao Estado e tinha responsabilidades de destaque nas suas funções como servidor público. Naquela alegria de regressar a Moçambique e viver ao lado do pai e seus irmãos, Sheila decide ficar em Moçambique e não voltar para Portugal no final das férias. Ela informou a mãe via telefone. Esta comunicação via telefone, numa época que não havia telemóvel e nem Face Time, tornou o processo sofrido para a sua mãe, que via-se forçada ficar longe da sua maior razão de viver e de estar em Portugal a batalhar a vida. A sua filha!

No ano seguinte, Sheila foi matriculada na Escola Secundária Josina Machel. E teve assim a experiência de estudar pela primeira vez numa escola pública.

Ao longo do tempo, a emoção foi desaparecendo. Sheila começou a sentir falta da sua mãe e do seu porto seguro. As coisas nessa altura, já não eram como tinha fantasiado.

Já na recta final do ano lectivo, algo começou a gritar no coração de Sheila para voltar. E ela decidiu obedecer o desejo. À revelia do pai tratou toda documentação para voltar para Portugal, aos 13 anos. A mãe, com ajuda de uma amiga, tratou da passagem. Em Setembro, antes do ano lectivo terminar, ela conversou com o pai e anunciou que iria voltar para Portugal. Amade acabou consentido mesmo que triste por acreditar não ter conseguido cativar a sua filha.

A 22 de Outubro, Sheila seguiu para Portugal. Chegou a 23 de Outubro, dia do seu aniversário. Celebrou a sua data natalícia e, a 28 de Dezembro, a mãe dela morreu.

Amade Miquidade estava em uma ilha perto de Moçambique a passar férias com a família. Ao tomar conhecimento, interrompeu as férias e foi para Portugal para amparar a filha e cuidar da cerimónia fúnebre. A família de Ângela não tinha condições para arcar com as despesas fúnebres. O pai de Sheila cuidou de tudo, tendo mostrado a sua filha a grandeza de ajudar os outros independentemente da história que cada um carrega e como ela cruza nas nossas vidas.

Depois da morte da mãe, Sheila voltou para Maputo, onde veio viver com o pai. Em Portugal, Sheila tinha um tio paterno. Ele conversou com o pai, apelando que Amade mantivesse o nível de vida que a mãe dava à Sheila com muito sacrifício. Como resposta, matriculou Sheila na Escola Portuguesa, em Maputo.

Naquela escola, ela era uma aluna média. Não era muito dada para cálculos, tinha domínio das ciências humanas e se relacionava normalmente com os seus colegas.

Sheila vivia uma nova fase em que teve alguma dificuldade no início em se adaptar a aquela que passaria ser a sua realidade pois, uma das coisas que havia contribuído para Sheila ficar em Maputo depois de ter vindo para férias, era o facto de a mãe ser muito rigorosa e exigente. E ela pensou que seria diferente em Maputo com o pai.

Tiveram muitos desafios enquanto pai e filha, mas hoje são grandes amigos e o seu pai conseguiu desempenhar com mestria o seu papel de pai, provedor e protector.

Carreira

Sheila começou a trabalhar aos 14 anos de idade, quando estava em Maputo. Ela pediu emprego numa loja de tecidos, chamada Tumarence. A loja pertencia aos pais de uma amiga e colega de escola. Pediu para trabalhar nas férias para poder ganhar algum dinheirinho para suas necessidades e caprichos, porque não tinha mesada. Na Tumarence, como não tinha idade para ser empregue, trabalhou na supervisão e explicava aos clientes qual tecido era recomendável comprar.

O pai teve uma educação militar eincentivava os filhos a lutarem pela vida e a não viverem na “sombra da bananeira”. Ele dizia aos filhos “eu tenho motorista, mas o motorista é meu, fui eu que conquistei, vocês devem fazer esforço, por isso andem a pé ou em transporte público”.

Algum tempo depois a madrasta dela abriu uma lanchonete no Liceu da Polana e convidou Sheila para ser gestora. Ela ia comprar hambúrguer no talho da Polana; ia à Xipamanine comprar diversos produtos. Ela ganhou experiência de gestão apenas com este negócio, mas o negócio não era lucrativo e todo dinheiro que gerava era para pagar custos e não restava nada para ela.

Aos 17 anos, trabalhou nas bombas de combustível ao lado do Hotel Polana, antiga Mobil na loja de conveniência como caixa, saía da faculdade às 12:00 horas e, às 15:00 horas, entrava na loja e saía às 23:00 horas para casa.

Para Sheila era muito importante trabalhar, pois conseguia ser exposta a novas pessoas e trabalhar para ser independente mais cedo.

Ela estava também numa associação de jovens músicos. Era uma agremiação constituída por jovens do grupo ElectroBase. Sheila era relações públicas e porta-voz, devido a sua responsabilidade na associação, foi seleccionada para ir a Rádio televisão Klint – RTK, como porta-voz do grupo. Devido a sua postura e desempenho na entrevista, Frederico Costa, o editor de programas, gostou da atitude de Sheila e naquele mesmo dia convidou-lhe para ser locutora.

Ela aceitou o convite de imediato. Sheila passou pelos testes e começou a trabalhar na RTK. Assim entrou para o mundo da comunicação. Ela fazia voz-off de reportagens e apresentava um programa de teatro de jovens amadores.

Sheila apresentava também o telejornal numa altura em que não havia muitas condições de trabalho. Era tudo numa sala muito pequena de menos de 40m2 e muito quente. Os colegas da redacção extraíam as notícias da BBC, transcreviam e ela pegava nos manuscritos (nem sempre legíveis) fazia voz-off ou apresentava o telejornal.

Estes trabalhos eram conciliados com a faculdade. Primeiro ia à faculdade e depois à televisão. Sheila estava a fazer Licenciatura em Ciências da Comunicação na especialidade de Marketing e Publicidade, no ISPU (actual A Politécnica).

Depois dessa experiência esteve como estagiária de Relações Pública no Hotel Rovuma. Nessa altura, ela saía da faculdade às 13:00 horas e ia trabalhar, para depois sair às 19:00 horas. Esta dinâmica de ser multi-tarefa sempre foi uma característica que acompanhou a sua trajectória profissional.

Pelo desempenho que teve no hotel, Sheila recebeu um prémio de estágio e foi participar na Feira Internacional de Turismo, em Durban. A feira chamava-se “Indaba”. Foi então que Sheila negociou o seu primeiro salário. Ela argumentou que precisava andar bem apresentada para receber os hóspedes e que a imagem era muito importante para o tipo de turistas que estava a lidar com eles. Acertou assim um contrato de 400 dólares. Muito bom salário na altura e até hoje.

Aos 22 anos, Sheila casou-se e em 2000 saiu do Hotel Rovuma. Ela frequentava o último ano da faculdade e estava grávida do seu filho, por isso parou por um tempo com a maratona de trabalho.

O marido da tia de Sheila, que era um inglês e que trabalhava no Hotel Cardoso, disse que o hotel estava a procura de uma executiva de vendas. Eles queriam alguém que fosse vender os produtos e serviços do hotel, então acabaram por contratar Sheila, por saberem da sua experiência no anterior hotel e por terem a visto em Durban, na feira.

Enquanto trabalhava no hotel Cardoso colocou-se num enorme desafio. Sheila era casada, tinha um bebé recém-nascido (Atílio Cheman), e estava a terminar a faculdade. Ela trabalhava a tempo inteiro no hotel e era assistente do coordenador do curso na faculdade, Marcelino Alves, e também era assistente da professora de relações públicas. Ela tinha praticamente quatro empregos, incluindo os de mãe e esposa (risos…).

Ela ganhava dinheiro pelas aulas que leccionava como assistente. Nos dias que tinha aula por dar, ela criava um programa que lhe permitisse sair, como visitar clientes ou algo parecido para conseguir desenvolver uma das suas paixões que era leccionar.

O trabalho na faculdade ajudava-a a ganhar mais algum dinheiro extra para sua família, pois era recém-casada, depois de sair do hotel, ia fazer trabalhos administrativos na universidade. Depois disso ia para casa. Às vezes o bebé estranhava-lhe, pois ela passava muito tempo fora de casa.

Essa forma de trabalhar influenciou também a relação com o seu marido, na altura (já estão divorciados). Para Sheila havia necessidade de trabalhar para buscar mais rendimentos para o seu lar. Ela era muito nova e estava pensando no bem-estar da família. Aquela época acabou sendo boa, porque fazia coisas que o coração dela gostava, mas desafiante, pois era difícil de gerir.

Naquele contexto e pelo seu desempenho Sheila foi convidada para, ao invés de ser assistente da docente, passar a dar aulas como regente na Faculdade de Gestão, no ISPU.

Em 2002, Sheila foi trabalhar para o banco Millennium Bim. Entrou no banco como técnica especialista, no Departamento de Marketing para área de serviços bancários, nessa altura, três anos depois nasceu sua filha Melika Cheman, e mais três anos nasceu o seu terceiro filho, Leandro Cheman.

Profissionalmente os desafios e as responsabilidades foram crescendo na sua vida e carreira. No Millennium bim passou de técnica, à sub-directora de comunicação institucional e corporativa e de responsabilidade social e por fim, antes de sair da empresa em 2014, esteve dois anos no departamento de qualidade como Directora de Melhoria de Qualidade de Serviços.

Como tinha experiência de ser professora, Sheila foi também formadora no banco. Ela foi formadora na área de marketing, programa de responsabilidade social, e melhoria de serviços bancários, sobretudo para o Millenium Bim Prestige. Ela esteve à frente de uma pesquisa de atendimento e deu formação interna para o segmento Prestige.
Chegou uma altura em que ficou difícil conciliar o trabalho no banco, aulas no ISPU, e dona de casa. Por vezes Sheila tinha de viajar e então parou de dar aulas. Os 12 anos de banca foram marcantes para a profissional que se tornou.

Em Outubro de 2014, Sheila foi para a Vale Moçambique, onde é directora de comunicação até a actualidade (2019). Em 2018, passou também a ser directora de comunicação das empresas do corredor da Vale e do corredor logístico.

Na Vale, Sheila faz gestão da comunicação, veículos de comunicação interna e externa com o objectivo de garantir favorabilidade e a reputação da empresa.

Um dos trabalhos que a equipa liderada por Sheila já realizou com destaque foi o evento de inauguração do corredor de Nacala. O evento teve uma grande dimensão nacional e internacional, pois contou com a participação de altas individualidades governamentais, institucionais e financeiras.

Recentemente tem vindo a capacitar-se nas áreas de desenvolvimento humano, com a formação em coaching pela More Humanistic Institute, adquirindo competências para uma melhor gestão de pessoas tendo em conta o seu sistema social, humanizando as relações profissionais e trazendo do outro, o melhor das suas competências, habilidades e atitudes. Ela ainda não está fazer o coach com muita intensidade, mas espera actuar em breve com mais intensidade.

Convicções

Ser mãe para Sheila Miquidade é uma experiência agridoce. A mãe é mãe porque trouxe filhos ao mundo, mas não existe um manual para explicar como ela deve agir (risos…). Ser mãe aprende-se sendo. Entre acertos e falhas, a mãe vai se tornando uma mãe cada vez mais digna de ser mãe. Daí que o tratamento que dá ao primeiro filho numa fase, é aprimorado no filho seguinte.

Contudo, a partir do momento que uma mulher se torna mãe, toda energia, sabedoria adquirida é investida e transferida para que seja em prol do equilíbrio e sucesso dos filhos… Ser mãe é amar incondicionalmente, é sofrer pelos filhos e dar oportunidade deles também desenharem o seu caminho e serem os actores e protagonistas das suas histórias…

Ser mãe é um projecto de vida inacabado e uma jornada de alto desenvolvimento. Ser mãe é estar em estágio permanente de Amor!

Aos 35 anos, Sheila foi para uma universidade espiritual, na Índia, Brahama Kumaris. Foi na fase do divórcio e ela precisava de se reencontrar consigo mesma. Na Índia, aprendeu a lidar com a sua história e a canalizar a sua experiência de vida para se transformar e canalizar a sua energia para acções positivas.

Naquela trajectória, Sheila tornou-se mais tolerante como mãe e percebeu que ela não muda os seus filhos e não deve mudá-los. Percebeu que só pode influenciá-los e que eles têm a sua jornada e devem segui-la. A sua função como mãe é dar-lhes bons valores como: amor; respeito; humildade; e responsabilidade.

Fé e Hobbies

Quanto à convicção religiosa, Sheila é muçulmana. Ela crê em Deus. Contudo, não é frequentadora da mesquita. Ela procura em seu interior buscar a Deus, falar com Ele e ouvi-lo através da meditação. Acredita que o mais importante é ouvi-Lo e praticar o bem. Esta crença converte-se em Fé, que é o seu guia, fonte de força, e esperança de Sheila.

Quanto aos hobbies, Sheila gosta de escrever poesia. Ela tem uma página no facebook chamada TatiandoSonhos, onde publica seus poemas. Tem também uma página intitulada Sheila Miquidade coach, onde partilha ensinamentos.

Também gosta de ler, já teve um clube de leitura. Ela gosta de jogar ténis e nadar. Ama viajar, conhecer outros países e museus, turismo cultural. Ela já foi à Tanzânia; Espanha; Holanda; Alemanha; Brasil; Índia; Zimbabué; África do Sul; Swazilândia; Qatar; e Itália e claro, Portugal onde viveu 10 anos mas, anseia dar a volta ao mundo em 80 dias.

As viagens ajudam-lhe a abrir a mente e perceber que existe tanto do mundo por ser visto. Cada viagem torna-lhe mais aberta para receber o outro na sua diferença e singularidade, enriquecendo a sua existência.

Após o meu mestrado…

Boa noite! Espero que esteja tudo bem…

Infelizmente, ultimamente tenho publicado pouco… Não é fácil ter as minhas actividades e colocar algo aqui, mas é algo que decidi fazer e espero que possa publicar temas inspiradores e com uma certa frequência…

Na última publicação falei de como foi o meu mestrado. Hoje vou falar como foi depois de ser mestre.

Por mais estranho que pareça, depois de terminar o mestrado, continuava a dar aulas na faculdade onde sempre trabalhei, mas sentia um vazio enorme… tinha vontade de continuar com aquela adrenalina que sentia ao estudar e trabalhar.

Três meses depois de terminar o mestrado me casei… E três semanas depois de me casar fiquei grávida…

Os primeiros dois meses de gravidez correram bem. Continuei com a minha rotina de trabalho enquanto procurava uma bolsa de estudos para doutoramento. Mas… a partir do terceiro mês de gravidez tive que parar todas as minhas actividades porque estava com uma gravidez de risco e tinha muita dor. Tive atestado médico até ao parto. Foram 7 meses em casa! Nem preciso dizer que tive novamente uma crise depressiva! Lembro-me que ligava, mandava mensagens, escrevia e-mails, etc para os meus colegas do serviço a suplicar que me enviassem trabalho. Eles tinham receio de tornar as coisas piores e não me mandavam!

Como forma de me ocupar, fui pesquisando cursos online e fui os fazendo. Lembro-me que fiz muitos cursos nessa altura. Os cursos eram todos gratuitos, mas muito bons. Posso partilhar algumas das plataformas que usei: Udemy, Alison e Coursera. Os cursos são em inglês, mas velem mesmo a pena. Eles dão a possibilidade de ter certificados se a pessoa interessada preferir pagar pelo curso. Ao mesmo tempo que fazia os curos, fui procurando bolsas de estudo para doutoramento.

No terceiro mês de gravidez, surgiu uma oportunidade para fazer um doutoramento fora do pais. Eu devia ir para lá em Janeiro e devia lá ficar por 5 meses. Conversei com o meu marido sobre o assunto, e ele não se opôs. Mas, as coisas não correram bem e desisti da bolsa de estudos.

Alguns meses depois, consegui uma bolsa de estudos também para fora do pais, que por acaso era de um projecto da universidade onde trabalho. Mais uma vez, o meu marido não se opôs. Devia começar os estudos em Agosto do mesmo ano, mas o meu filho nasceu em Julho. Sendo assim, pedi para que adiassem a minha viagem para Janeiro do ano seguinte. Estava indecisa relativamente o que faria tendo um bebé tão pequeno, mas a minha tia que tanto tenho falado 😊 mais uma vez me deu uma bela ideia: porque não organizas com a tua universidade lá para poderes levar o teu filho e colocares a ele lá na creche? Ao mesmo tempo, veio-me o que uma amiga e “mentora” no mundo da ciência me disse quando foi visitar o meu filho com apenas um mês de idade: NUNCA DEIXES DE FAZER A TUA VIDA POR CAUSA DOS TEUS FILHOS, eles vão crescer e vão te MANDAR PASSEAR!!! Eu olhei para o meu filho, tão pequenino e disse: esta senhora não tem coração!!! Professora querida (ela é doutorada ou PhD), se estiver a ler esta publicação, não zanga comigo! Estes dois conselhos me ajudaram a ter coragem para levar o meu filho de 5 meses para um lugar super frio, em pleno Janeiro, e ficar apenas com ele lá por 3 meses.

Sinceramente, foi horrível! Eu logo de manhã ia deixar a ele na creche que ficava no mesmo recinto da universidade e quando saia das minhas actividades entre as 16 as 17 horas eu ia o buscar. As actividades lá começavam as 09hrs, mas pareciam 21 horas de Moçambique. Frio, chuva, tudo escuro!!!!

Depois de algumas semanas, o meu filho adoeceu pela primeira vez. Teve broncopneumonia! Eu tive que gerir a ele, a gripe que também apanhei, os estudos, etc. Ao mesmo tempo, o meu marido ficou cá sozinho, a tomar conta do trabalho dele e das coisas de casa.

Agradeço a uma prima que vivia num outro pais próximo de onde estávamos que ia nos ver sempre que podia. Ela ajudou-me muito. Tenho tios que vivem em alguns países ali a volta, e dois amigos que também sempre que podiam me apoiavam. Tive também apoio das colegas que foram comigo a formação e dos colegas do escritório onde eu trabalhava. Os colegas do escritório me ajudaram com roupas quentes para mim e para o meu filho e alguns brinquedos. Uma senhora moçambicana que vive lá com a família é um anjo para todos os Moçambicanos que lá passam, ela é incrivelmente boa pessoa!!!

Mas graças a Deus, ao final do terceiro mês tinha conseguido cumprir com todas as tarefas e regressei a Maputo.

Bem, este foi o resumo de como começou o meu doutoramento.

Nas próximas publicações espero partilhar um pouco mais sobre a experiência de fazer doutoramento e a minha experiência na vida na academia e na investigação cientifica.

Abraços!

O início da minha pós-graduação

Bom dia!!!

Espero que estejam bem.

Um abraço muito forte as vítimas de calamidades naturais, especialmente na cidade da Beira.

Nas últimas publicações partilhei as experiências inspiradoras de algumas mulheres e o trabalho de um fotógrafo que se dedica a retratos de mulheres.

Enquanto aguardo mais histórias, vou dar continuidade ao meu percurso.

Na última publicação falei sobre a minha experiência clínica e como nasceu a minha paixão pelas pessoas vivendo com o HIV/SIDA.

Hoje vou falar como comecei a pós-graduação.

Ainda trabalhando no departamento que estava a cuidar das questões curriculares lá faculdade onde trabalho, alguns meses depois do início da minha carreira profissional, fui convidada pela direcção da Faculdade para fazer um mestrado exactamente na área de educação médica. Tinha tudo a ver com o trabalho que estava a fazer.

O convite foi feito se não me engano em Abril e em Junho comecei o mestrado. O curso era fora de Moçambique e era um país onde nunca tinha ido. Sendo o curso em inglês, tive que fazer o exame de proficiência na língua inglesa. Para tal, tinha que me preparar bastante, mas como tinha feito 25 horas de inglês por semana no ano zero durante a minha licenciatura, já me dava alguma vantagem. Procurei um professor de inglês para me preparar para o exame durante um mês. Depois de um mês fiz o exame de proficiência e graças a Deus consegui nota para poder fazer o mestrado.

Segundo os requisitos do mestrado, devia ficar lá um mês por ano. Sendo o mestrado de dois anos, ia fazer duas viagens com duração de um mês durante dois anos.

A primeira viagem foi marcante! Lembro-me que um amigo e ex. colega da faculdade também foi seleccionado, mas ele vinha de uma outra província, outra faculdade de Medicina. Fomos em voos diferentes.
Para mim, era a primeira vez que fazia uma viagem com tantas horas e conexões sozinha e em adulta. Fazer uma viagem daquelas até hoje me impressiona: conexões, aeroportos diferentes, 10 a mais horas de voo, terminais que parecem infinitas, etc… Uma das coisas que mais me marcou nessa viagem foi o facto de ter vencido as conexões de Maputo a Joanesburgo e depois me perder nas terminais na penúltima conexão.
Eu estava sentada numa entrada que indicava o número de várias portas, incluindo a que eu devia estar e pensei que estava tudo resolvido e que quando chegasse a hora do embarque era só atravessar aquela entrada. Qual não foi o meu espanto quando realmente chega a hora, entro no tal local e tive que correr por aí mais 10 minutos até chegar a porta de embarque!!! Fiquei desesperada a pensar que ia perder o voo de conexão!!! Quando chego a porta, todos os passageiros já tinham embarcado e as senhoras que lá estavam viram-me a correr e disseram: calma, podes vir mais devagar, não te preocupes…. Uff, lá fui e consegui apanhar o voo… Na segunda viagem houve uma avaria no regresso e tivemos que ficar 5 horas de tempo dentro do avião parado na pista…. Foi horrível…

Mas, deixando as experiências de aeroportos…. Chegando lá para o meu mestrado, fomos muito bem-recebidos. A universidade é fantástica, os docentes maravilhosos e a cidade virou minha paixão…

Um dos grandes desafios que senti durante o meu mestrado, foi o facto de ter iniciado sem nenhuma formação na área de investigação científica. Eles são bastante exigentes e no fim de cada módulo deve-se apresentar um trabalho muito parecido a um artigo científico.

Para além disso, conforme relatei em publicações anteriores, estava com muitos desafios no meu local de trabalho e isto influenciou que terminasse o mestrado três anos depois do previsto. Recordo-me que no dia da defesa o meu supervisor fez questão de mencionar as dificuldades que passei para terminar o mestrado ao público que lá estava a assistir.

O que aprendi ao fazer o mestrado enquanto trabalhava?:

  • Aprendi que fazer o mestrado ao mesmo tempo que se está empregado e na área em que está a trabalhar é vantajoso. Iniciar o mestrado sem ter experiência profissional e numa área que não é a que está a exercer as suas funções pode ser um desafio;
  • Dependendo do tipo do mestrado, é importante ter experiência na área de investigação científica. Tenho dito isto sempre aos meus estudantes de licenciatura os incentivando a fazer investigação científica;
  • Estudar e trabalhar, é um grande desafio. Sugiro que se tiverem condições, façam a pós-graduação fora do país e a tempo inteiro;

No momento do mestrado não era casada e não tinha filhos, por isso os meus desafios foram mais ligados a estar a trabalhar a tempo inteiro, a estudar a tempo “parcial” e a falta de experiência na área de investigação científica.

Por hoje é tudo! Espero que a minha história inspire a alguém…

Estou aberta a esclarecimentos e creio que os meus convidad@s que contaram as suas histórias também estejam abert@s para esclarecimentos.

Até breve!

Hélder Zandamela dá voz aos que não tem, principalmente as mulheres

Chamo-me Hélder Zandamela,

Faço fotografia como hobby,

Gosto de fotografar o dia-a-dia do povo, dando voz aos que não têm, principalmente as mulheres.

Mostro ao mundo as batalhas das nossas heroínas anónimas, as que lutam arduamente e “ninguém vê”: a mulher moçambicana que é por natureza gestora do lar e da nação 👏🏾💪🏾

Admira António: primeira piloto de Moçambique!

Bom dia!!!!

Mais uma vez agradeço a tod@s pelas contribuicoes e em especial as mulheres que tem contado as suas historias, que prometeram contar 🙂 e aos homens que também prometeram enviar as suas mensagens de suporte as mulheres!!!!

Hoje partilho o video com a historia da Admira António! Mais uma mulher de fibra!!!

Os vídeos falam por si…

Publicação dos Vídeos com o apoio do Espaço de Inovação da UEM