Sheila Miquidade… “uma pessoa de honra”…

Boa tarde! Espero que esteja tudo bem.

Hoje partilho um texto escrito por Dalton Sitoe, publicado a 09 Fevereiro 2019, sobre Sheila Miquidade, Directora de Comunicação na Vale Moçambique…

Directora de Comunicação na Vale Moçambique

Há mil e uma circunstâncias para o nascimento de um filho, e a partir de qualquer uma delas pode surgir uma pessoa de honra. Aliás, as próprias circunstâncias edificam esse ser, pois em parte o Homem é resultado das suas próprias experiências.

Ângela Maria foi criada por uma família cuja responsabilidade material, financeira e de educação era das mulheres (avô, mãe e tias). Ela cresceu na famosa Mafalala, na cidade de Maputo, um bairro rico em histórias e economicamente humilde. Aos 17 anos de idade, ela engravidou do pai da sua filha, com quem tinha, na altura, uma relação ocasional.

A adolescente viria a dar à luz a 23 de Outubro de 1978, em Maputo. Assim veio ao mundo Sheila Maria Muhamudo, e depois aos 8 anos de idade, Sheila Marisa Muhamudo Amade Miquidade, mas sobre esta parte da história falaremos melhor depois. Assim Sheila foi criada pela mãe, como a sua mãe e suas tias também tinham sido criadas apenas pelas mulheres da família.

Poucas memórias há do que terá acontecido desde à nascença aos 4 anos de idade de Sheila. Contudo, sabe-se que Ângela Maria trabalhou, durante esse período, na antiga Inter-franca, na Av. 24 de Julho, na cidade de Maputo. Mas depois, procurando formas de garantir uma vida melhor para sua filha, partiu para Portugal, por volta de1982. Foi uma aventura! Ela era uma mulher atrevida.

Em Portugal, Ângela estabeleceu-se em Odivelas, concretamente no Vale do Forno. Lá teve várias oportunidades de emprego em área de relações públicas. Alguns meses, após a sua chegada, levou a filha para ir morar com ela, quando Sheila tinha 4 anos.

Sheila Miquidade levava uma vida boa em Portugal. Não chegou a perceber carência financeira. Ela chegou a viver num apartamento de um prédio de um centro comercial em Odivelas; a mãe conseguia prover uma boa educação, estudava numa escola privada (Externato João Ratão); tinha acesso a um mundo de fantasia, dando a si, filha única todos os benefícios do seu esforço como bons brinquedos e acesso a experiências diferentes.

Sheila e a sua mãe viviam sozinhas e só poderiam contar uma com a outra. O conceito de família, pelo menos até aquela altura, era algo restrito; e família resumia-se a elas duas. Algo diferente de África, em que é alargada. E isso teve sua influência na infância de Sheila.

Vivendo apenas com a mãe, Sheila sem se aperceber ia se tornando auto-suficiente, brincava mais com bonecas e tinha uma cadela chamada Layca, que a ajudava a preencher o vazio da falta de irmãos ou família mais alargada por perto. Como elas viviam num terceiro andar, ela gostava de lançar um chinelo das escadas abaixo para que Layca fosse buscar. Essa brincadeira trazia alegria para a criança que crescia entre um mundo de criança e de adulto, apesar de ter amigos com quem brincar.

As suas melhores amigas foram Patrícia Monteiro, Carla e Jamila. Com elas conversava e brincava. Mas também tinha amigos e certa vez, Sheila foi brincar e a mãe procurou-lhe tanto e não a encontrou. Ela apareceu no final do dia, de mãos dadas com um amigo loirinho. A mãe apanhou um susto, mas depois percebeu que eram coisas da idade, pois Sheila era tudo na vida de Ângela Maria, sua mãe.

Amade Miquidade é o pai de Sheila. Ainda muito jovem iniciou a carreira como militar e foi ajudante de campo do primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel. Ele soube que Ângela Maria estava grávida seis meses depois. A primeira atitude dele foi informar ao pai dele e ao seu falecido irmão Adamito. Quando Sheila nasceu seu pai apresentou-lhe aos seus pais e irmãos. Sheila foi bem acolhida.

Ângela tomaria depois a filha, rumando para Portugal, sem que tivesse sido registada pelo pai devido as diversas circunstâncias do seu relacionamento com o pai de Sheila.

Aos oito anos de idade, Amade, depois de tentativas de aproximação foi atrás delas em Portugal para registar a sua filha e dar continuidade a aquele que seria um dos actos mais importantes de vida da Sheila, ter o reconhecimento emocional e oficial do pai. Amade registou Sheila no Consulado de Moçambique, em Portugal. Já era vontade da mãe de Sheila que a filha se reencontrasse com o pai.

Foi com esse registo que Sheila Maria Muhamudo passou a chamar-se Sheila Marisa Muhamudo Amade Miquidade.

Este reencontro foi muito desejado e cresceu no coração de Sheila a vontade de querer viver com o pai. Imaginava como seria viver em Moçambique, ao lado dos seus irmãos e com o seu pai. E aos 12 anos, veio para Moçambique passar férias em casa do pai.

O pai tinha boas condições de vida, estava ligado ao Estado e tinha responsabilidades de destaque nas suas funções como servidor público. Naquela alegria de regressar a Moçambique e viver ao lado do pai e seus irmãos, Sheila decide ficar em Moçambique e não voltar para Portugal no final das férias. Ela informou a mãe via telefone. Esta comunicação via telefone, numa época que não havia telemóvel e nem Face Time, tornou o processo sofrido para a sua mãe, que via-se forçada ficar longe da sua maior razão de viver e de estar em Portugal a batalhar a vida. A sua filha!

No ano seguinte, Sheila foi matriculada na Escola Secundária Josina Machel. E teve assim a experiência de estudar pela primeira vez numa escola pública.

Ao longo do tempo, a emoção foi desaparecendo. Sheila começou a sentir falta da sua mãe e do seu porto seguro. As coisas nessa altura, já não eram como tinha fantasiado.

Já na recta final do ano lectivo, algo começou a gritar no coração de Sheila para voltar. E ela decidiu obedecer o desejo. À revelia do pai tratou toda documentação para voltar para Portugal, aos 13 anos. A mãe, com ajuda de uma amiga, tratou da passagem. Em Setembro, antes do ano lectivo terminar, ela conversou com o pai e anunciou que iria voltar para Portugal. Amade acabou consentido mesmo que triste por acreditar não ter conseguido cativar a sua filha.

A 22 de Outubro, Sheila seguiu para Portugal. Chegou a 23 de Outubro, dia do seu aniversário. Celebrou a sua data natalícia e, a 28 de Dezembro, a mãe dela morreu.

Amade Miquidade estava em uma ilha perto de Moçambique a passar férias com a família. Ao tomar conhecimento, interrompeu as férias e foi para Portugal para amparar a filha e cuidar da cerimónia fúnebre. A família de Ângela não tinha condições para arcar com as despesas fúnebres. O pai de Sheila cuidou de tudo, tendo mostrado a sua filha a grandeza de ajudar os outros independentemente da história que cada um carrega e como ela cruza nas nossas vidas.

Depois da morte da mãe, Sheila voltou para Maputo, onde veio viver com o pai. Em Portugal, Sheila tinha um tio paterno. Ele conversou com o pai, apelando que Amade mantivesse o nível de vida que a mãe dava à Sheila com muito sacrifício. Como resposta, matriculou Sheila na Escola Portuguesa, em Maputo.

Naquela escola, ela era uma aluna média. Não era muito dada para cálculos, tinha domínio das ciências humanas e se relacionava normalmente com os seus colegas.

Sheila vivia uma nova fase em que teve alguma dificuldade no início em se adaptar a aquela que passaria ser a sua realidade pois, uma das coisas que havia contribuído para Sheila ficar em Maputo depois de ter vindo para férias, era o facto de a mãe ser muito rigorosa e exigente. E ela pensou que seria diferente em Maputo com o pai.

Tiveram muitos desafios enquanto pai e filha, mas hoje são grandes amigos e o seu pai conseguiu desempenhar com mestria o seu papel de pai, provedor e protector.

Carreira

Sheila começou a trabalhar aos 14 anos de idade, quando estava em Maputo. Ela pediu emprego numa loja de tecidos, chamada Tumarence. A loja pertencia aos pais de uma amiga e colega de escola. Pediu para trabalhar nas férias para poder ganhar algum dinheirinho para suas necessidades e caprichos, porque não tinha mesada. Na Tumarence, como não tinha idade para ser empregue, trabalhou na supervisão e explicava aos clientes qual tecido era recomendável comprar.

O pai teve uma educação militar eincentivava os filhos a lutarem pela vida e a não viverem na “sombra da bananeira”. Ele dizia aos filhos “eu tenho motorista, mas o motorista é meu, fui eu que conquistei, vocês devem fazer esforço, por isso andem a pé ou em transporte público”.

Algum tempo depois a madrasta dela abriu uma lanchonete no Liceu da Polana e convidou Sheila para ser gestora. Ela ia comprar hambúrguer no talho da Polana; ia à Xipamanine comprar diversos produtos. Ela ganhou experiência de gestão apenas com este negócio, mas o negócio não era lucrativo e todo dinheiro que gerava era para pagar custos e não restava nada para ela.

Aos 17 anos, trabalhou nas bombas de combustível ao lado do Hotel Polana, antiga Mobil na loja de conveniência como caixa, saía da faculdade às 12:00 horas e, às 15:00 horas, entrava na loja e saía às 23:00 horas para casa.

Para Sheila era muito importante trabalhar, pois conseguia ser exposta a novas pessoas e trabalhar para ser independente mais cedo.

Ela estava também numa associação de jovens músicos. Era uma agremiação constituída por jovens do grupo ElectroBase. Sheila era relações públicas e porta-voz, devido a sua responsabilidade na associação, foi seleccionada para ir a Rádio televisão Klint – RTK, como porta-voz do grupo. Devido a sua postura e desempenho na entrevista, Frederico Costa, o editor de programas, gostou da atitude de Sheila e naquele mesmo dia convidou-lhe para ser locutora.

Ela aceitou o convite de imediato. Sheila passou pelos testes e começou a trabalhar na RTK. Assim entrou para o mundo da comunicação. Ela fazia voz-off de reportagens e apresentava um programa de teatro de jovens amadores.

Sheila apresentava também o telejornal numa altura em que não havia muitas condições de trabalho. Era tudo numa sala muito pequena de menos de 40m2 e muito quente. Os colegas da redacção extraíam as notícias da BBC, transcreviam e ela pegava nos manuscritos (nem sempre legíveis) fazia voz-off ou apresentava o telejornal.

Estes trabalhos eram conciliados com a faculdade. Primeiro ia à faculdade e depois à televisão. Sheila estava a fazer Licenciatura em Ciências da Comunicação na especialidade de Marketing e Publicidade, no ISPU (actual A Politécnica).

Depois dessa experiência esteve como estagiária de Relações Pública no Hotel Rovuma. Nessa altura, ela saía da faculdade às 13:00 horas e ia trabalhar, para depois sair às 19:00 horas. Esta dinâmica de ser multi-tarefa sempre foi uma característica que acompanhou a sua trajectória profissional.

Pelo desempenho que teve no hotel, Sheila recebeu um prémio de estágio e foi participar na Feira Internacional de Turismo, em Durban. A feira chamava-se “Indaba”. Foi então que Sheila negociou o seu primeiro salário. Ela argumentou que precisava andar bem apresentada para receber os hóspedes e que a imagem era muito importante para o tipo de turistas que estava a lidar com eles. Acertou assim um contrato de 400 dólares. Muito bom salário na altura e até hoje.

Aos 22 anos, Sheila casou-se e em 2000 saiu do Hotel Rovuma. Ela frequentava o último ano da faculdade e estava grávida do seu filho, por isso parou por um tempo com a maratona de trabalho.

O marido da tia de Sheila, que era um inglês e que trabalhava no Hotel Cardoso, disse que o hotel estava a procura de uma executiva de vendas. Eles queriam alguém que fosse vender os produtos e serviços do hotel, então acabaram por contratar Sheila, por saberem da sua experiência no anterior hotel e por terem a visto em Durban, na feira.

Enquanto trabalhava no hotel Cardoso colocou-se num enorme desafio. Sheila era casada, tinha um bebé recém-nascido (Atílio Cheman), e estava a terminar a faculdade. Ela trabalhava a tempo inteiro no hotel e era assistente do coordenador do curso na faculdade, Marcelino Alves, e também era assistente da professora de relações públicas. Ela tinha praticamente quatro empregos, incluindo os de mãe e esposa (risos…).

Ela ganhava dinheiro pelas aulas que leccionava como assistente. Nos dias que tinha aula por dar, ela criava um programa que lhe permitisse sair, como visitar clientes ou algo parecido para conseguir desenvolver uma das suas paixões que era leccionar.

O trabalho na faculdade ajudava-a a ganhar mais algum dinheiro extra para sua família, pois era recém-casada, depois de sair do hotel, ia fazer trabalhos administrativos na universidade. Depois disso ia para casa. Às vezes o bebé estranhava-lhe, pois ela passava muito tempo fora de casa.

Essa forma de trabalhar influenciou também a relação com o seu marido, na altura (já estão divorciados). Para Sheila havia necessidade de trabalhar para buscar mais rendimentos para o seu lar. Ela era muito nova e estava pensando no bem-estar da família. Aquela época acabou sendo boa, porque fazia coisas que o coração dela gostava, mas desafiante, pois era difícil de gerir.

Naquele contexto e pelo seu desempenho Sheila foi convidada para, ao invés de ser assistente da docente, passar a dar aulas como regente na Faculdade de Gestão, no ISPU.

Em 2002, Sheila foi trabalhar para o banco Millennium Bim. Entrou no banco como técnica especialista, no Departamento de Marketing para área de serviços bancários, nessa altura, três anos depois nasceu sua filha Melika Cheman, e mais três anos nasceu o seu terceiro filho, Leandro Cheman.

Profissionalmente os desafios e as responsabilidades foram crescendo na sua vida e carreira. No Millennium bim passou de técnica, à sub-directora de comunicação institucional e corporativa e de responsabilidade social e por fim, antes de sair da empresa em 2014, esteve dois anos no departamento de qualidade como Directora de Melhoria de Qualidade de Serviços.

Como tinha experiência de ser professora, Sheila foi também formadora no banco. Ela foi formadora na área de marketing, programa de responsabilidade social, e melhoria de serviços bancários, sobretudo para o Millenium Bim Prestige. Ela esteve à frente de uma pesquisa de atendimento e deu formação interna para o segmento Prestige.
Chegou uma altura em que ficou difícil conciliar o trabalho no banco, aulas no ISPU, e dona de casa. Por vezes Sheila tinha de viajar e então parou de dar aulas. Os 12 anos de banca foram marcantes para a profissional que se tornou.

Em Outubro de 2014, Sheila foi para a Vale Moçambique, onde é directora de comunicação até a actualidade (2019). Em 2018, passou também a ser directora de comunicação das empresas do corredor da Vale e do corredor logístico.

Na Vale, Sheila faz gestão da comunicação, veículos de comunicação interna e externa com o objectivo de garantir favorabilidade e a reputação da empresa.

Um dos trabalhos que a equipa liderada por Sheila já realizou com destaque foi o evento de inauguração do corredor de Nacala. O evento teve uma grande dimensão nacional e internacional, pois contou com a participação de altas individualidades governamentais, institucionais e financeiras.

Recentemente tem vindo a capacitar-se nas áreas de desenvolvimento humano, com a formação em coaching pela More Humanistic Institute, adquirindo competências para uma melhor gestão de pessoas tendo em conta o seu sistema social, humanizando as relações profissionais e trazendo do outro, o melhor das suas competências, habilidades e atitudes. Ela ainda não está fazer o coach com muita intensidade, mas espera actuar em breve com mais intensidade.

Convicções

Ser mãe para Sheila Miquidade é uma experiência agridoce. A mãe é mãe porque trouxe filhos ao mundo, mas não existe um manual para explicar como ela deve agir (risos…). Ser mãe aprende-se sendo. Entre acertos e falhas, a mãe vai se tornando uma mãe cada vez mais digna de ser mãe. Daí que o tratamento que dá ao primeiro filho numa fase, é aprimorado no filho seguinte.

Contudo, a partir do momento que uma mulher se torna mãe, toda energia, sabedoria adquirida é investida e transferida para que seja em prol do equilíbrio e sucesso dos filhos… Ser mãe é amar incondicionalmente, é sofrer pelos filhos e dar oportunidade deles também desenharem o seu caminho e serem os actores e protagonistas das suas histórias…

Ser mãe é um projecto de vida inacabado e uma jornada de alto desenvolvimento. Ser mãe é estar em estágio permanente de Amor!

Aos 35 anos, Sheila foi para uma universidade espiritual, na Índia, Brahama Kumaris. Foi na fase do divórcio e ela precisava de se reencontrar consigo mesma. Na Índia, aprendeu a lidar com a sua história e a canalizar a sua experiência de vida para se transformar e canalizar a sua energia para acções positivas.

Naquela trajectória, Sheila tornou-se mais tolerante como mãe e percebeu que ela não muda os seus filhos e não deve mudá-los. Percebeu que só pode influenciá-los e que eles têm a sua jornada e devem segui-la. A sua função como mãe é dar-lhes bons valores como: amor; respeito; humildade; e responsabilidade.

Fé e Hobbies

Quanto à convicção religiosa, Sheila é muçulmana. Ela crê em Deus. Contudo, não é frequentadora da mesquita. Ela procura em seu interior buscar a Deus, falar com Ele e ouvi-lo através da meditação. Acredita que o mais importante é ouvi-Lo e praticar o bem. Esta crença converte-se em Fé, que é o seu guia, fonte de força, e esperança de Sheila.

Quanto aos hobbies, Sheila gosta de escrever poesia. Ela tem uma página no facebook chamada TatiandoSonhos, onde publica seus poemas. Tem também uma página intitulada Sheila Miquidade coach, onde partilha ensinamentos.

Também gosta de ler, já teve um clube de leitura. Ela gosta de jogar ténis e nadar. Ama viajar, conhecer outros países e museus, turismo cultural. Ela já foi à Tanzânia; Espanha; Holanda; Alemanha; Brasil; Índia; Zimbabué; África do Sul; Swazilândia; Qatar; e Itália e claro, Portugal onde viveu 10 anos mas, anseia dar a volta ao mundo em 80 dias.

As viagens ajudam-lhe a abrir a mente e perceber que existe tanto do mundo por ser visto. Cada viagem torna-lhe mais aberta para receber o outro na sua diferença e singularidade, enriquecendo a sua existência.

Após o meu mestrado…

Boa noite! Espero que esteja tudo bem…

Infelizmente, ultimamente tenho publicado pouco… Não é fácil ter as minhas actividades e colocar algo aqui, mas é algo que decidi fazer e espero que possa publicar temas inspiradores e com uma certa frequência…

Na última publicação falei de como foi o meu mestrado. Hoje vou falar como foi depois de ser mestre.

Por mais estranho que pareça, depois de terminar o mestrado, continuava a dar aulas na faculdade onde sempre trabalhei, mas sentia um vazio enorme… tinha vontade de continuar com aquela adrenalina que sentia ao estudar e trabalhar.

Três meses depois de terminar o mestrado me casei… E três semanas depois de me casar fiquei grávida…

Os primeiros dois meses de gravidez correram bem. Continuei com a minha rotina de trabalho enquanto procurava uma bolsa de estudos para doutoramento. Mas… a partir do terceiro mês de gravidez tive que parar todas as minhas actividades porque estava com uma gravidez de risco e tinha muita dor. Tive atestado médico até ao parto. Foram 7 meses em casa! Nem preciso dizer que tive novamente uma crise depressiva! Lembro-me que ligava, mandava mensagens, escrevia e-mails, etc para os meus colegas do serviço a suplicar que me enviassem trabalho. Eles tinham receio de tornar as coisas piores e não me mandavam!

Como forma de me ocupar, fui pesquisando cursos online e fui os fazendo. Lembro-me que fiz muitos cursos nessa altura. Os cursos eram todos gratuitos, mas muito bons. Posso partilhar algumas das plataformas que usei: Udemy, Alison e Coursera. Os cursos são em inglês, mas velem mesmo a pena. Eles dão a possibilidade de ter certificados se a pessoa interessada preferir pagar pelo curso. Ao mesmo tempo que fazia os curos, fui procurando bolsas de estudo para doutoramento.

No terceiro mês de gravidez, surgiu uma oportunidade para fazer um doutoramento fora do pais. Eu devia ir para lá em Janeiro e devia lá ficar por 5 meses. Conversei com o meu marido sobre o assunto, e ele não se opôs. Mas, as coisas não correram bem e desisti da bolsa de estudos.

Alguns meses depois, consegui uma bolsa de estudos também para fora do pais, que por acaso era de um projecto da universidade onde trabalho. Mais uma vez, o meu marido não se opôs. Devia começar os estudos em Agosto do mesmo ano, mas o meu filho nasceu em Julho. Sendo assim, pedi para que adiassem a minha viagem para Janeiro do ano seguinte. Estava indecisa relativamente o que faria tendo um bebé tão pequeno, mas a minha tia que tanto tenho falado 😊 mais uma vez me deu uma bela ideia: porque não organizas com a tua universidade lá para poderes levar o teu filho e colocares a ele lá na creche? Ao mesmo tempo, veio-me o que uma amiga e “mentora” no mundo da ciência me disse quando foi visitar o meu filho com apenas um mês de idade: NUNCA DEIXES DE FAZER A TUA VIDA POR CAUSA DOS TEUS FILHOS, eles vão crescer e vão te MANDAR PASSEAR!!! Eu olhei para o meu filho, tão pequenino e disse: esta senhora não tem coração!!! Professora querida (ela é doutorada ou PhD), se estiver a ler esta publicação, não zanga comigo! Estes dois conselhos me ajudaram a ter coragem para levar o meu filho de 5 meses para um lugar super frio, em pleno Janeiro, e ficar apenas com ele lá por 3 meses.

Sinceramente, foi horrível! Eu logo de manhã ia deixar a ele na creche que ficava no mesmo recinto da universidade e quando saia das minhas actividades entre as 16 as 17 horas eu ia o buscar. As actividades lá começavam as 09hrs, mas pareciam 21 horas de Moçambique. Frio, chuva, tudo escuro!!!!

Depois de algumas semanas, o meu filho adoeceu pela primeira vez. Teve broncopneumonia! Eu tive que gerir a ele, a gripe que também apanhei, os estudos, etc. Ao mesmo tempo, o meu marido ficou cá sozinho, a tomar conta do trabalho dele e das coisas de casa.

Agradeço a uma prima que vivia num outro pais próximo de onde estávamos que ia nos ver sempre que podia. Ela ajudou-me muito. Tenho tios que vivem em alguns países ali a volta, e dois amigos que também sempre que podiam me apoiavam. Tive também apoio das colegas que foram comigo a formação e dos colegas do escritório onde eu trabalhava. Os colegas do escritório me ajudaram com roupas quentes para mim e para o meu filho e alguns brinquedos. Uma senhora moçambicana que vive lá com a família é um anjo para todos os Moçambicanos que lá passam, ela é incrivelmente boa pessoa!!!

Mas graças a Deus, ao final do terceiro mês tinha conseguido cumprir com todas as tarefas e regressei a Maputo.

Bem, este foi o resumo de como começou o meu doutoramento.

Nas próximas publicações espero partilhar um pouco mais sobre a experiência de fazer doutoramento e a minha experiência na vida na academia e na investigação cientifica.

Abraços!

O início da minha pós-graduação

Bom dia!!!

Espero que estejam bem.

Um abraço muito forte as vítimas de calamidades naturais, especialmente na cidade da Beira.

Nas últimas publicações partilhei as experiências inspiradoras de algumas mulheres e o trabalho de um fotógrafo que se dedica a retratos de mulheres.

Enquanto aguardo mais histórias, vou dar continuidade ao meu percurso.

Na última publicação falei sobre a minha experiência clínica e como nasceu a minha paixão pelas pessoas vivendo com o HIV/SIDA.

Hoje vou falar como comecei a pós-graduação.

Ainda trabalhando no departamento que estava a cuidar das questões curriculares lá faculdade onde trabalho, alguns meses depois do início da minha carreira profissional, fui convidada pela direcção da Faculdade para fazer um mestrado exactamente na área de educação médica. Tinha tudo a ver com o trabalho que estava a fazer.

O convite foi feito se não me engano em Abril e em Junho comecei o mestrado. O curso era fora de Moçambique e era um país onde nunca tinha ido. Sendo o curso em inglês, tive que fazer o exame de proficiência na língua inglesa. Para tal, tinha que me preparar bastante, mas como tinha feito 25 horas de inglês por semana no ano zero durante a minha licenciatura, já me dava alguma vantagem. Procurei um professor de inglês para me preparar para o exame durante um mês. Depois de um mês fiz o exame de proficiência e graças a Deus consegui nota para poder fazer o mestrado.

Segundo os requisitos do mestrado, devia ficar lá um mês por ano. Sendo o mestrado de dois anos, ia fazer duas viagens com duração de um mês durante dois anos.

A primeira viagem foi marcante! Lembro-me que um amigo e ex. colega da faculdade também foi seleccionado, mas ele vinha de uma outra província, outra faculdade de Medicina. Fomos em voos diferentes.
Para mim, era a primeira vez que fazia uma viagem com tantas horas e conexões sozinha e em adulta. Fazer uma viagem daquelas até hoje me impressiona: conexões, aeroportos diferentes, 10 a mais horas de voo, terminais que parecem infinitas, etc… Uma das coisas que mais me marcou nessa viagem foi o facto de ter vencido as conexões de Maputo a Joanesburgo e depois me perder nas terminais na penúltima conexão.
Eu estava sentada numa entrada que indicava o número de várias portas, incluindo a que eu devia estar e pensei que estava tudo resolvido e que quando chegasse a hora do embarque era só atravessar aquela entrada. Qual não foi o meu espanto quando realmente chega a hora, entro no tal local e tive que correr por aí mais 10 minutos até chegar a porta de embarque!!! Fiquei desesperada a pensar que ia perder o voo de conexão!!! Quando chego a porta, todos os passageiros já tinham embarcado e as senhoras que lá estavam viram-me a correr e disseram: calma, podes vir mais devagar, não te preocupes…. Uff, lá fui e consegui apanhar o voo… Na segunda viagem houve uma avaria no regresso e tivemos que ficar 5 horas de tempo dentro do avião parado na pista…. Foi horrível…

Mas, deixando as experiências de aeroportos…. Chegando lá para o meu mestrado, fomos muito bem-recebidos. A universidade é fantástica, os docentes maravilhosos e a cidade virou minha paixão…

Um dos grandes desafios que senti durante o meu mestrado, foi o facto de ter iniciado sem nenhuma formação na área de investigação científica. Eles são bastante exigentes e no fim de cada módulo deve-se apresentar um trabalho muito parecido a um artigo científico.

Para além disso, conforme relatei em publicações anteriores, estava com muitos desafios no meu local de trabalho e isto influenciou que terminasse o mestrado três anos depois do previsto. Recordo-me que no dia da defesa o meu supervisor fez questão de mencionar as dificuldades que passei para terminar o mestrado ao público que lá estava a assistir.

O que aprendi ao fazer o mestrado enquanto trabalhava?:

  • Aprendi que fazer o mestrado ao mesmo tempo que se está empregado e na área em que está a trabalhar é vantajoso. Iniciar o mestrado sem ter experiência profissional e numa área que não é a que está a exercer as suas funções pode ser um desafio;
  • Dependendo do tipo do mestrado, é importante ter experiência na área de investigação científica. Tenho dito isto sempre aos meus estudantes de licenciatura os incentivando a fazer investigação científica;
  • Estudar e trabalhar, é um grande desafio. Sugiro que se tiverem condições, façam a pós-graduação fora do país e a tempo inteiro;

No momento do mestrado não era casada e não tinha filhos, por isso os meus desafios foram mais ligados a estar a trabalhar a tempo inteiro, a estudar a tempo “parcial” e a falta de experiência na área de investigação científica.

Por hoje é tudo! Espero que a minha história inspire a alguém…

Estou aberta a esclarecimentos e creio que os meus convidad@s que contaram as suas histórias também estejam abert@s para esclarecimentos.

Até breve!

Hélder Zandamela dá voz aos que não tem, principalmente as mulheres

Chamo-me Hélder Zandamela,

Faço fotografia como hobby,

Gosto de fotografar o dia-a-dia do povo, dando voz aos que não têm, principalmente as mulheres.

Mostro ao mundo as batalhas das nossas heroínas anónimas, as que lutam arduamente e “ninguém vê”: a mulher moçambicana que é por natureza gestora do lar e da nação 👏🏾💪🏾

Admira António: primeira piloto de Moçambique!

Bom dia!!!!

Mais uma vez agradeço a tod@s pelas contribuicoes e em especial as mulheres que tem contado as suas historias, que prometeram contar 🙂 e aos homens que também prometeram enviar as suas mensagens de suporte as mulheres!!!!

Hoje partilho o video com a historia da Admira António! Mais uma mulher de fibra!!!

Os vídeos falam por si…

Publicação dos Vídeos com o apoio do Espaço de Inovação da UEM

Chamo-me Mércia Castela, nasci sem os membros superiores!!!

Chamo-me Mércia Castela, natural da Massinga.

Nasci sem os membros superiores devido a uma má formação congénita.

Vivo em Maxixe – Província de Inhambane, e estou no último ano do curso de Direito.

Tenho sonhos como qualquer uma jovem.

Não tenho braços, mas nem por isso me limito. Uso os pés para as minhas actividades do quotidiano…

Sou sorridente. Não sou diferente! Não sou especial! Só não tenho membros superiores…

Eu amo desporto! Ando de skate e jogo futebol de 11…

Wau ser eu é algo muito fofo…

O meu lema é: nada nem ninguém irá determinar onde posso chegar!!!

Obrigada pela atenção sua dispensada…

Beijo

Prémio Mundial de alimentos em 2016: Maria Andrade

Boa noite amig@s!!!

Hoje partilho o perfil de mais uma mulher de fibra: Maria Andrade!!!

Estou muito feliz por ela ter partilhado o seu perfil e tenho a certeza que inspira a seguirmos os nossos sonhos!!!

Aqui vai o perfil por ela me concedido:

Maria Isabel Andrade, de Cabo Verde, recebeu o Prémio Mundial de alimentos em 2016.

Tem 34 anos de experiência profissional em África. Seus interesses de pesquisa incluem transferência de tecnologia, sistemas de sementes, melhoramento genético de plantas, criação e melhoria de cadeia de valores para geração de renda.

Maria é altamente qualificada na área de formação de outros melhoradores, facilitando a partilha de conhecimentos e construindo plataformas de comunicação para aumentar a visibilidade e o impacto da batata doce na África Subsariana, com o fim de reduzir a deficiência de vitamina A, melhorar os mercados e aumentar a sua produção como cultura alimentar e de rendimento.

Maria, passou os últimos 22 anos a trabalhar em Moçambique. Nos seus primeiros 10 anos, serviu como agrónoma regional de produção de mandioca e batata doce para uma rede de pesquisa de raízes tropicais para a África Austral, um programa executado conjuntamente pelo Centro Internacional da Batata (CIP) e Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA).

De 2002 a 2006, coordenou um projecto de cinco anos de IITA/CIP em multiplicação acelerada e distribuição de materiais de plantio saudáveis das melhores variedades de alta produção de mandioca e batata doce. Mais de 1 milhão de agricultores receberam material de plantio de alta qualidade no âmbito deste projecto, em 98 dos 141 distritos do país (Moçambique), colaborando com 124 parceiros para atingir este objectivo.

Em 2006, foi recrutada pelo CIP para gerir a plataforma SASHA – batata doce de polpa alaranjada para segurança alimentar e saúde em África – reunindo melhoradores do Malawi, Zâmbia, África do Sul, Madagáscar, Moçambique e Angola, com ênfase na investigação em melhoramento para resistência e/ou tolerância à seca. Maria lançou 30 variedades de batata doce, todas bio-fortificadas, das quais 20 são tolerantes/resistentes à seca.

O governo moçambicano reconhece a batata doce bio-fortificada como uma cultura de segurança alimentar e nutricional. Estas variedades tolerantes à seca já atingiram um milhão de agricultores que adoptaram e estão a ter rendimentos não só com a venda das raízes e das ramas como também com a venda de produtos processados.

Ao longo dos últimos 15 a 20 anos, a pesquisa na área de melhoramento genético, no desenvolvimento dos sistemas de sementes, resultou no aumento do rendimento de cerca de 5-6 toneladas por hectare em 2003 para quase 14 toneladas em 2016 (FAOSTAT, 2016) (http://www.fao.org/news/archive/news-by-date/2016/en/). Cerca de 23% de toda a batata doce cultivada em Moçambique é bio-fortificada.

Em reconhecimento da contribuição significativa desta batata para a segurança alimentar e nutricional, o governo de Moçambique a considerou como uma das culturas prioritárias e incluiu no seu plano de investimento. Além disso, no sector nutricional, esta batata foi adoptada como uma tecnologia dominante para o combate à deficiência de vitamina A pelo Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional (SETSAN) e na estratégia do país no dimensionamento do movimento da nutrição (SUN).

Em 2016 Maria participou do “Hunger Event”, convocado pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron, e pelo vice-presidente do Brasil, Michel Temer, para compartilhar ideias sobre o papel da batata doce de polpa alaranjada na luta contra a subnutrição para as mulheres e crianças, em Moçambique e em Africa e, finalmente, recolher recomendações/iniciativas/acções a serem tomadas em conta para reduzir o nível de subnutrição até 2016, nas Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Maria também trabalhou em estreita colaboração com outros cientistas CGIAR (https://www.cgiar.org/) da região para capitalizar sobre possíveis sinergias a serem adquiridas com o planeamento conjunto. Na plataforma para a inovação da agricultura e transferência de tecnologia em Moçambique, ela representa todos os membros CGIARs desta plataforma ( que são 8).

Há doze anos ela vem desempenhando o cargo da directora do CIP em Moçambique, além do seu papel de liderança científica. Ela também serviu como vice-presidente para angariação de fundos para a Sociedade Internacional de Cultivos de Raízes Tropicais (ISTRC) por cinco anos. Ela está no Conselho de Administração da Aliança para a Revolução Verde em África, AGRA, e é membro do painel de revisão externo do projecto NEXTGEN Cassava (https://www.nextgencassava.org/) , projeto de $19 milhões da Cornell & IITA.

Ela também é membro do grupo de alto nível de campeões da iniciativa – The Food Forever Initiative – Crop Trust (https://www.croptrust.org/our-mission/crop-diversity-why-it-matters/food-forever-initiative/). Trata-se de um grupo de alto nível que trabalha para apoiar a nova parceria para a biodiversidade. Campeões agrícolas irão defender a causa, mostrar o sucesso e comunicar a importância da diversidade agrícola.

Reconhecimentos chave para o seu trabalho com a batata doce: