Estórias do período de formação: Clóves Boaventura… (Parte 2)

“O meu tipo de vida era boémio, mas ainda assim tinha algumas responsabilidades a que atender. A minha rotina exigia que saísse de casa cedo para o trabalho, e que depois disso, fosse directamente à faculdade. Entretanto, tinha as contas do apartamento – renda, água, luz, condomínio, alimentação, etc. – e as propinas da faculdade. No entanto, devido ao tipo de vida errática que levava, inúmeras vezes tivera dificuldade para cumprir com várias dessas responsabilidades. Mas o episódio que me fez decidir aumentar definitivamente a minha renda, foi o seguinte:


Certa manhã, antes de sair para a Direcção Provincial de Agricultura e Desenvolvimento Rural, fui espreitar para o contador de electricidade – Credelec – como sempre fazia, e para minha desgraça, tinha só um número a piscar – o número 2! Eu sabia que com aquele valor de energia, não conseguiria passar o dia todo com luz, mas também não tinha um centavo no bolso…nem no Banco…nem alguém mais me quereria emprestar qualquer valor! Decidi então, desligar todos electrodomésticos da casa, para que ao voltar, tivesse, pelo menos luz e água quente para o banho. Assim fiz e fui ao serviço. Voltei perto das 22 horas, ainda sem dinheiro, cheio de fome – mas pelo menos com luz em casa – pensei eu. Voltei a ligar o disjuntor geral e acender as luzes. Fui logo para a geleira tratar de preparar alguma coisa para alimentar-me…e para meu desgosto, percebi que toda a comida que lá estava, tinha se estragado em virtude da vaga de calor que aquele dia nos tinha oferecido…depois do banho frio, preparei a água para o chá, torcendo para que aqueles 2 Hz de energia se aguentassem até à hora do chá e da dormida. Consegui, mas fui para a cama com uma firme resolução sobre aumentar a minha renda!

Pois, foi assim que me vi, mais rápido do que “de repente”, com três empregos e a faculdade no final do dia laboral.

Lembrei-me de consultar a um dos meus docentes sobre o assunto. Ele ofereceu-me uma ajuda: Pediu, oficialmente, à Directora do Departamento de Economia da Direcção de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Sofala, onde eu era o responsável pelo Sector de Estatísticas, que me dispensasse para actividades da Faculdade, pelo período de 3 meses. A sorte continuava do meu lado, pelo que, que a Directora cedeu, com a condição de que mantivesse o sector funcional e tivesse disponibilidade para as eventuais emergências do departamento. Assinei o termo de compromisso e no dia seguinte já estava no posto de trabalho dos Médicos Sem fronteira. Enquanto atendia ao rádio de comunicação entre os transportadores de material médico, os postos de abastecimento e as requisições dos verificadores de qualidade, ia fazendo telefonemas para os serviços Distritais, mercados de cereais e hortícolas, para fornecer os dados colhidos, aos meus colegas. A hora do almoço, fechava o contentor – meu escritório no MSF – e ia na minha motinha, até ao meu Sector, na Direcção de Agricultura, para actualizar a base de dados e deixar recomendações escritas para os meus colegas. Mas ainda havia a obra do Hospital Provincial…Para resolver esse assunto, passei a acordar mais cedo – as 3:30 da manhã saia de casa, e com uma gambiarra, comecei a fazer o esboço do que seria a minha obra para aquele Hospital.

E assim se passaram os 3 meses mais preenchidos daquele período – entre o Hospital, o posto de trabalho dos Médicos Sem Fronteira, a Agricultura e a Faculdade. Felizmente, consegui passar de ano e pagar todas as despesas que tive naquele ano. Sobrou-me ainda dinheiro, para que no final de ano, fosse a correr, de férias, para Inhambane, reconciliar-me com a namorada, que por essas alturas, já tinha sérias desconfianças sobre uma segunda e talvez terceira pessoa entre nós…
O ano passou super rápido para mim. Emagreci e reduzi drasticamente as saídas noturnas – embora nunca as tenha abandonado por completo – mas foi um período de muito aprendizado sobre mim mesmo.

Aprendi, por exemplo, que sempre há uma forma de resolver as questões que realmente importam para nós. Umas soluções demoram mais tempo do que outras, mas sempre há uma solução. Aprendi que a Universidade forma e formata, sim, mas – e talvez, sobretudo – prepara as pessoas para a vida.

Aprendi também que tenho dentro de mim, mais energia e determinação, do que imaginava…mas que ela não se mostraria, se eu não tivesse sido confrontado com a hipótese de perder as coisas que me eram mais queridas naquele período – a faculdade e a casa em que vivia.

Aprendi ainda que, embora tivesse que fazer as minhas coisas sozinho, podia sempre contar com as pessoas próximas para uma e outra ajuda ao longo do processo. Essas pessoas sempre estão por perto, prontas e disponíveis para ajudar. Mas antes, nós precisamos ajudarmo-nos a nós mesmos. E muitas vezes, essa auto-ajuda se resume a aprender a afastar o orgulho, o ego inflado…a ter referências internas e não externas (esquecer as opiniões dos outros e perceber nossos próprios sentimentos) e a lidar com os assuntos pelo que eles são.


Hoje, olho para trás e percebo que não seria como sou agora, se não tivesse passado fome naquele dia em que toda comida se estragou…”

Estórias do período de formação: Clóves Boaventura… (Parte 1)

Boa tarde amigs@…

Espero que estejam bem… Tenho vos escrito pouco ultimamente, mas cá estou hoje para contar mais uma historia interessante e inspiradora…

Sem mais delongas, ai vai:

Sou o Clóves Eurides dos Santos Boaventura e gostaria de partilhar convosco, algumas das peripécias por que passei ao longo da minha formação académica e pessoal. Espero poder inspirar-vos ou no mínimo, contribuir para melhorar o humor de vocês.

Ora, aqui vamos nós!

Comecei a minha formação superior na cidade da Beira, para o curso de Economia e Gestão, na Universidade Católica de Moçambique. Foi para mim uma aventura no seu mais completo sentido, pois, foi lá onde me assumi homem (grande aventura, essa!). Foi lá onde comecei a viver sozinho e a gozar das liberdades que esse facto me conferia… mas, como mais tarde vim a perceber, toda liberdade acarreta responsabilidades inerentes. Sem responsabilidade, não há liberdade que perdure, aliás.

Felizmente, para mim, o percurso estudantil nunca se dissociou da vida social, com todas as vicissitudes daí advindas. Durante muito tempo olhei para meus colegas de curso, que pareciam ter a vida super-organizada, como se tivessem departamentos para todos os assuntos: tempo livre para fazer aquelas coisas importantes na vida, a família pagando as contas da faculdade, do alojamento, alimentação, etc., estudos organizados, etc., etc. Para mim, a vida era uma confusão de assuntos emaranhados entre contas atrasadas, namoradas malandras, testes surpresa e ressacas olímpicas…

Vivendo sozinho, num apartamento de 3 cómodos (tipo 1), uma mota pequena – a que carinhosamente chamávamos “lambreta” – um emprego de 8 horas diárias, a faculdade no período pós-laboral, e a muita disponibilidade para as muitas festas de fim de semana, tive, muito rapidamente que fazer as contas à vida. Para arcar com as despesas que esse tipo de vida exigia, tinha mesmo que aplicar alguns dos princípios do que cursava – Economia e Gestão!

Decidi então que precisava de aumentar a renda – outro emprego – e assim foi. Passado pouco tempo, soube de uma campanha de luta contra a cólera, promovida pelos Médicos Sem Fronteira (MSF) da Cidade da Beira. Fiz-me ao local, prestei provas e fui admitido para o posto de Fiel de Armazém, por uma jornada laboral de 8 horas! O ordenado era muito bom para aquele período, mas tinha o problema do horário, pois, eu já vendera meu serviço por 8 horas diárias, à Direcção Provincial de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Sofala.

Ainda não sabia como faria as duas coisas no mesmo período laboral, mas decidi que ficaria com os dois empregos. Assinei o contracto de imediato e passei o dia todo a pensar numa forma de manter as duas rendas na minha posse.

Entretanto – e porque na ânsia de obtenção de melhor renda, eu tinha batido todas as portas conhecidas e desconhecidas – mais uma oferta de trabalho surgiu: havia uma oportunidade para pintar o mural do Banco de Socorros do Hospital Provincial de Sofala, na cidade da Beira. Uma amiga, que sabia que eu gostava de artes, falou-me dessa oportunidade.

Tinha muito poucos trunfos a meu favor, principalmente porque eu nunca tinha pintado mural algum na minha vida! Mas, entre a busca de melhores respostas às possíveis perguntas da entrevista para a pintura, e a melhor forma de manter o emprego na Agricultura, sem perder a oportunidade dos MSF, ainda encontrei forma de descobrir qual material se usa para pintura de murais expostos à luz do dia.

Mais por premência de tempo para a conclusão da obra, do que pelas minhas respostas, ou qualificações, acabei ficando com a obra de pintura do mural do Banco de Socorros do Hospital Provincial de Sofala.

O responsável pelo trabalho levou-me a ver o muro e apresentar o pessoal com quem deveria deixar o material de pintura, pedir acesso ao local, etc. A obra era gigantesca para a minha qualificação (cerca de 45 metros de muro virgem), mas não fraquejei. Esse emprego, pelo menos não obrigava a presença ininterrupta. Eu poderia fazer o meu próprio horário, desde que apresentasse a obra no prazo acordado.

Voltei mais uma vez para minha casinha, e de repente vi-me com três empregos, cada um com sua exigência, a maioria das quais eu não era capaz de satisfazer.

Bom, até agora, parecerá ao leitor que há em mim algo de muito resiliente ou pelo menos, fora do comum… bem, deixem–me desfazer os possíveis equívocos e explicar detalhadamente, o que, no princípio, quis dizer com ”as despesas que esse tipo de vida exigia”.¨

Bom, amig@s, hoje a história do Clóves termina por aqui… Continua na próxima publicação… Aguardo por vós e pelas vossas histórias…

Resposta ao comentário da Felicidade Niquice…

Boa tarde!

Hoje estou muito feliz em poder responder a uma ex-estudante minha!!! Muito obrigada Fernanda! Fico lisonjeada… 🙃 E Felicidade, não se preocupe com o tamanho do texto…

Escrevo como publicação para ver se mais pessoas podem ler…

Eis o cometário abaixo:

“Boa Dra. Beatriz! Fui sua aluna na Faculdade de Medicina e devo dizer-lhe que gosto muito do blog!

Gostaria que abordasse o tema Dinâmica, mãe, mulher, esposa, trabalhadora e estudante! Pois muito oiço que tudo se complementa é só ter uma “agenda”, mas a verdade é que a vida é corrida. Andamos de clínica em clínica, estamos a estudar (mestrado/doutoramento/especialidade) temos filhos, eu neste caso um pedacinho de carne de 9 meses, sou casada. Ufff. Gostaria de perceber da sua rotina e como o faz! E uma questão levou o seu filho quando foi a Suécia para o Doutoramento? Se sim, como foi?

Desculpe o texto longo”

Eis a minha resposta:

Cara Felicidade.

Muito obrigada pelo comentário e dúvidas, e os meus parabéns pelas suas conquistas.

Realmente a rotina não é fácil. Uma das coisas que nunca fiz e nunca quis fazer é andar de clínica em clínica. Alguns podem criticar, e pensar que tenho uma vida financeira abastada, pois sei que a maior parte dos profissionais de saúde andam de clínica em clínica para poder melhorar o seu rendimento. Mas, eu preferi abdicar disso para realmente ter uma vida mais equilibrada. Sou docente e pesquisadora desde 2008 e trabalhei em um hospital geral e dois centros de saúde públicos por 5 anos. Quando era solteira até podia fazer mais clínica, mas realmente não quis fazer.

Uma das coisas que me ajudou foi ter um marido que apoia as minhas decisões. É claro que se eu disser algo com que ele não concorda, ele expõe a sua opinião e eu depois tomo a decisão com ele. O mais importante é a comunicação entre os parceiros. As vezes é necessário nos esforçamos mais para ajudar o nosso parceiro a entender a decisão que queremos tomar, mas a conversa resolve.

Como consigo? É algo que aprendo todos os dias. Não há uma fórmula para tal. Mas em primeiro lugar temos que gostar do que estamos a fazer. De seguida, creio que para além de termos aliados dentro de casa, na família e no local de trabalho, é importante nos amarmos e nos conhecermos. Saber os nossos limites.

Eu sou péssima a trabalhar com notas, agendas, etc… Lembro-me que na faculdade durante o curso de medicina os docentes nos incentivavam a tomar notas. Eu comprava blocos de notas, cadernos, canetas de várias cores, marcadores, etc., e no fim do dia, pegava no livro e lia por inteiro…. Não conseguia concentrar-me usando as notas… e sou assim até agora… Sei que é algo recomendado, mas realmente tenho dificuldade.

Outra coisa que aprendi, foi que devo dormir o suficiente sempre que posso e respeitar as horas fora do expediente, feriados e finais de semana. Eu só trabalho fora das horas normais de expediente em casos de extrema necessidade. Fiz isso para poder cuidar mais de mim e poder estar mais tempo com a minha família. Sei que pode ser loucura, mas durante o curso de medicina nunca dormi depois das 22hrs, mesmo tendo exames… fiz a mesmo no mestrado e agora no doutoramento. Quando tinha noites no hospital onde trabalhava tentava compensar as noites de sono durante o dia… Lembro-me que quando viajava para o doutoramento fazia questão de ir para a cama na sexta-feira, acordar só para falar com a minha família, ir a casa de banho, comer e voltava as actividades normais só na segunda-feira.

Para além disso, tento andar muito a pé e fazer exercícios leves. Quando viajo para o doutoramento uso transportes públicos apenas em casos extremos. A distância do alojamento até a universidade é de mais ou menos 40 minutos. Então andava a pé pelo-menos 80 minutos por dia. Confesso que aqui em Maputo seja mais difícil fazer essas caminhadas.

Nem todos têm as mesmas condições que eu e nem as oportunidades, mas esta é a minha forma de cuidar de mim.

Quanto a levar o meu filho para a Bélgica – não Suécia como a Felicidade tinha dito – levei a ele quando tinha 5 meses pois ainda estava a amamentar. Isso foi na minha primeira viagem. Ele ficou comigo lá por 3 meses. A vantagem de lá é que há uma creche bem dentro da universidade. Então eu levava a ele logo de manhã, deixava a ele na creche e no fim do dia ia o buscar. Sendo assim, depois da hora do expediente e finais de semana não estudava para poder cuidar dele. Na segunda viagem ele já tinha um ano e quatro meses e sendo assim, deixei-o com o meu marido.

Bem, espero que tenha ajudado. Mas estou aberta a mais esclarecimentos.

Continuando com o meu doutoramento…

Bom dia amig@s! Tenho andando desaparecida por estes dias… Duas são as razões. A primeira porque realmente ando ocupada com outras tarefas e a segunda porque aguardo histórias de algumas pessoas, que já me prometeram… 🥰

Mas, entretanto, vou dar continuidade ao meu percurso ao longo do doutoramento.

Após regressar da primeira viagem para o meu doutoramento, levando o meu filho, tive que voltar a rotina de trabalhadora, mãe, esposa e estudante. Estava tudo a andar bem, até que durante os estudos me apercebi que existe uma grande lacuna entre expectativas e realidade.

Conforme planificado, os meus estudos iniciaram em Janeiro de 2015 e terminavam em Dezembro de 2018. Mas, todo o ano de 2015 passei a deriva porque nenhum dos supervisores que tinham sido alocados a mim na instituição onde eu estava a estudar percebiam do meu tema. Foram várias as frustrações com isso, até que em 2016 um dos supervisores, que era ao mesmo tempo o director do centro onde estou a fazer o doutoramento decidiu solicitar um docente de uma outra faculdade para ser o meu segundo supervisor. Sendo assim, fiquei com um supervisor na Faculdade onde eu pertencia, um numa outra Faculdade e um moçambicano.

Na Faculdade onde faço o doutoramento também somos alocados membros do comité de orientação, onde docentes de áreas diferentes, mas que podem contribuir para a área em o estudante está a trabalhar, são solicitados a guiar o estudante. Sendo assim, fiquei com 5 orientadores de áreas diferentes. Nisto, pude avançar com o protocolo de pesquisa e iniciar o trabalho de campo em 2016.


O trabalho de campo foi outro dilema! Costumo dizer as pessoas que para mim o doutoramento não é difícil, tendo em conta que escolhemos uma área que é do nosso interesse. As grandes barreias que tive não vieram de mim, mas sim do que estava a minha volta.


Sendo que o meu doutoramento era a base de financiamento, ou seja, bolsa de estudos, sempre que tivesse uma actividade devia fazer cartas, apresentar facturas, recibos, etc., e isso atrasou bastante o meu trabalho. Outra coisa que fez atrasar o meu trabalho de campo foi a disponibilidade dos participantes da pesquisa; viagens ao centro e norte do país; marcar com as pessoas e chegado o dia não estarem disponíveis, ou simplesmente não ter o número de participantes desejado e receber justificações não plausíveis sobre a falta de disponibilidade dos mesmos. Algumas das actividades tiveram que ser canceladas ou re-planificadas pelos motivos mencionados. Mas, consegui terminar a recolha de dados em dois meses.

Após a recolha de dados iniciou a sua análise. Aí a minha fraqueza já influenciou. Tenho 4 estudos, e dois deles são quantitativos… Depois do trauma com a matemática que já vos contei… continuo com fobia a números… 😒 A estatística durante a análise de dados voltou a recordar-me daquela professora que já vos falei… BEATRIZ, TU VAIS CHUMBAR!!!! Ufff… mas graças a Deus sobrevivi… Correu muito melhor do que eu imaginava, tive muito apoio do supervisor da outra faculdade. Ele foi chamado para o meu doutoramento um ano depois mas tem sido um grande pilar para o sucesso do meu doutoramento…🤗

Bem, hoje fico por aqui… na próxima publicação sobre mim irei falar de outro grande desafio que tive que foi a publicação dos artigos…


Um grande abraço e por favor, partilhem as vossas histórias, comentem, etc…

“Uma mulher é o que ela quiser ser e pode chegar até onde ela se propuser chegar…”

Boa noite!!! Hoje partilho um texto escrito para o Mulher Africana na Ciência…

Para ver o vídeo partilhado pela Educa Tv no YouTube onde a minha convidada aparece, por favor clique no link

“Olá!

Chamo-me Karen Fernanda Herculano tenho 18 anos de idade e frequento a universidade Eduardo Mondlane, no primeiro ano de engenharia elétrica.
Bem, como estudante tenho mais afinidade com as disciplinas práticas que as teóricas e isso não é de hoje.

Durante o ensino primário e secundário minhas disciplinas prediletas foram matemática, física e desenho (sobretudo matemática), o que não era muito comum principalmente para uma menina. Porém, para mim o género nunca foi um problema, muito pelo contrário.

Posso dizer que por ser filha de mãe solteira, tive a minha mãe como um exemplo de que uma mulher é o que ela quiser ser e pode chegar até onde ela se propuser chegar.


O meu irmão também foi um grande exemplo para mim, e teve um papel crucial durante o meu percurso. Felizmente a minha família sempre me ajudou e incentivou.


Bem, durante o meu percurso no ensino básico e fundamental não tive grandes dificuldades. Sempre me dediquei aos estudos, não por obrigação mas porque gostava, e como consequência tive resultados muito bons.

No entanto um momento me marcou bastante, que foi a transição para a décima primeira classe. A secção que escolhi seguir foi ciências com desenho, secção esta muito temida e maioritariamente aderida por rapazes.

Lembro-me que na turma haviam apenas 9 meninas contando comigo. Inicialmente foi uma fase difícil para mim, pois tive de ouvir de colegas e até de alguns professores coisas como: escolheste uma secção de rapazes… vais conseguir? Sabes desenhar? Não estás arrependida? Não queres trocar?


Isso de certa forma deixou-me insegura, e realmente cheguei a pensar em desistir. Mas felizmente não o fiz, dediquei-me mais pois era aquilo que eu gostava e queria. E consegui me engrenar chegando até a ser considerada uma das melhores alunas. Essa foi uma lição de vida que guardo até hoje: as pessoas não podem medir onde tu podes chegar…

Foi nessa fase (11ͣ -12 ͣ classe) que decidi que queria fazer Engenharia, mas ainda não sabia ao certo qual. Essa vontade surge maioritariamente por influência do meu irmão, formado em Engenharia Civil, que na altura ainda estava estudando. Ele sempre conversava comigo acerca de seu curso e eu achava muito interessante.

Quando chegou a vez de escolher, após ter investigado bastante, decidi que iria concorrer para o curso de Engenharia Eléctrica.

Se eu disser que é um mar de rosas, estarei a mentir. fazer engenharia, não e fácil, a transição em si para o ensino superior não e fácil, porém não há melhor coisa que saber que vai valer a pena pois é um esforço para realização de um sonho. E não importa o género quando se trata da ciência e do saber por isso fica aí o meu conselho as meninas que se sentem incapazes, receosas, etc….

Vocês têm sim capacidade, ninguém pode decidir por vós ou colocar-vos barreiras.

Eu particularmente não acho extraordinário ter feito ciências com desenho ou estar a fazer eng. Elétrica, isso e algo tão natural que eu gostaria, sinceramente, que todos encarassem da mesma maneira.


Não desistam dos vosso sonhos. Aqui na faculdade de engenharia há lugar para vós, seria muito bom ter mais e mais mulheres conosco.”

Chamo-me Cadino Chipanga, dedico-me a incentivar as mulheres a gostarem e cuidarem dos seus cabelos naturais e faço advocacia sobre higiene e direitos sexuais e reprodutivos…

Escute o áudio acima para ouvir a entrevista ao Cadino Chipanga pelo Mulher Africana na Ciência

Clique no link para assistir ao video Manhã de meninas com Carapinha

Reflexão sobre consequências do abuso/assédio sexual…

———– English version below ———

Boa noite amig@s…

Hoje trago uma reflexão…

Exactamente a uma semana atrás, uma estudante minha contactou-me a pedir que tivesse um encontro comigo.

Veio-me logo a cabeça que ela queria falar sobre algo que não estava a correr bem com os estudos dela… Mas… me enganei… O que ela queria conversar comigo era algo que eu não imaginava e que acabou com o meu dia… Algo que me deixou a reflectir até hoje…

Depois da conversa eu tinha que voltar ao trabalho. A tarefa que tinha que fazer naquele dia exigia muita concentração, coisa que não conseguia ter depois do que ouvi…

No fim do dia, conversei com o meu marido sobre o assunto e ele também ficou algum tempo a reflectir. Perguntei a ele o que achava de partilhar esta experiência no meu blog e concordou.

Reflecti por mais alguns dias e perguntei a estudante se podia partilhar a história sem que a identificasse. Ela felizmente concordou.

Vou resumir a história me concentrando na minha reflexão por estes dias…

A jovem me pede para conversar sobre a vida sentimental dela… fiquei um bocado embarassada ao perceber que o assunto não tinha nada a ver com a vida acadêmica mas percebi que ela estava mesmo aflita… não vou entrar em detalhes sobre o que ela me contou mas o que me deixou a reflectir foi o seguinte:

Ela diz que quando era mais nova tinha amigos que tinham “brincadeiras de adultos”. Tentei perceber o que ela queria dizer e percebi que ela falava de questões relacionadas com actividade sexual.

Conta ela que se lembra que teve algum contacto com estes amigos do sexo masculino, mas que não se lembra exactamente o que terá acontecido. O que ela se recorda é que a medida que ela foi crescendo, esses “amigos” iam gozando com ela e riam-se dela no meio da rua contando sobre alguns episódios de índole sexual que supostamente passaram com ela… O pior nessa história é que ela foi crescendo e não sabe dizer se já teve o primeiro contacto sexual, ou seja em linguagem popularmente conhecida, ela não sabe dizer se “é virgem”… Segundo ela, isto lhe atormenta desde a adolescência… Ela chora, perde noites a pensar no assunto, porque segundo a sua crença religiosa é importante que se case “virgem”…

Uff, isto pode parecer ridículo para muitos. Muita gente pode se questionar como é que uma jovem, adulta, não sabe dizer se é virgem? Ela própria antes de me contar ficou bastante indecisa e dizia frases como: eu acho que sou maluca, eu acho que sou parva… e hesitava em me contar o que tanto a afligia…

O que mais me aflige é que esta questão a tem atormentado estes anos todos e tem interferindo na vida sentimental dela…

“E se eu conhecer alguém, decidirmos nos casar e ele descobrir que não sou “virgem”…”

Não vou debater sobre a parte clínica deste assunto mas…

Quantas mais pessoas no mundo vivem com estes demónios? Quantas mais vítimas de abuso/assédio sexual têm este tipo de traumas?

 

———- English version ———-

Reflections on the consequences of sexual abuse/harassment…

Good evening, friends…

Today I’m bringing a reflection…

Exactly a week ago, a student of mine contacted me and requested a meeting with me.

It came to me quickly that she wanted to talk about something that was not going well with her studies … But … I was wrong … What she wanted to talk was something I did not imagine and that ended my day … Something that let me reflecting until today …

After the conversation, I had to get back to work. The task I had to do that day required a lot of concentration, something I could not do after what I have heard…

At the end of the day, I talked to my husband about it and he also took some time to reflect. I asked him what he thought of sharing this experience on my blog. He agreed.

I have reflected for a few more days and asked the student if she could share the story anonymously. She happily agreed.

I will summarise the story by focusing on my reflection…

The young woman asked me to talk about her sentimental life … I was a little embarrassed to realise that the subject had nothing to do with her academic life but I realised that she was really distressed … I will not go into detail about what she told me. What I was left to reflect was the following:

She says that when she was younger she had friends who had “adult plays”. I tried to figure out what she meant and realised that she was talking about sexual activity issues.

She recalls that she has had some contact with these male friends, but she does not remember exactly what happened. What she remembers is that as she grew up, these “friends” used to laugh at her in the middle of the street talking about some sexual episodes that supposedly happened with her …

The worst thing about this story is that she has grown up and does not know if she has had her first sexual contact, or in popular language, she cannot say if she is a virgin … According to her, this has been tormenting her since she was a teenager … She cries a lot when she thinks about it because according to his religious belief it is important to get married as a “virgin” …

Uff, this may seem ridiculous to many. Many people may wonder how a young woman, an adult, cannot tell if she is a virgin or not? Before she told me about her feelings she was very hesitant and said phrases like: I think I’m crazy, I think I’m silly … and hesitated to tell me what was so distressing …

What plagues me most is that this issue has plagued her all these years and has interfered in her sentimental life… “And if I meet someone, we decide to get married and he’ll find out that I’m not a “virgin”…”

I will not discuss the clinical part of this subject but…

How many more people in the world live with these demons? How many more victims of sexual abuse/harassment have this type of trauma?

———– English version below ———