Estórias do período de formação: Clóves Boaventura… (Parte 2)

“O meu tipo de vida era boémio, mas ainda assim tinha algumas responsabilidades a que atender. A minha rotina exigia que saísse de casa cedo para o trabalho, e que depois disso, fosse directamente à faculdade. Entretanto, tinha as contas do apartamento – renda, água, luz, condomínio, alimentação, etc. – e as propinas da faculdade. No entanto, devido ao tipo de vida errática que levava, inúmeras vezes tivera dificuldade para cumprir com várias dessas responsabilidades. Mas o episódio que me fez decidir aumentar definitivamente a minha renda, foi o seguinte:


Certa manhã, antes de sair para a Direcção Provincial de Agricultura e Desenvolvimento Rural, fui espreitar para o contador de electricidade – Credelec – como sempre fazia, e para minha desgraça, tinha só um número a piscar – o número 2! Eu sabia que com aquele valor de energia, não conseguiria passar o dia todo com luz, mas também não tinha um centavo no bolso…nem no Banco…nem alguém mais me quereria emprestar qualquer valor! Decidi então, desligar todos electrodomésticos da casa, para que ao voltar, tivesse, pelo menos luz e água quente para o banho. Assim fiz e fui ao serviço. Voltei perto das 22 horas, ainda sem dinheiro, cheio de fome – mas pelo menos com luz em casa – pensei eu. Voltei a ligar o disjuntor geral e acender as luzes. Fui logo para a geleira tratar de preparar alguma coisa para alimentar-me…e para meu desgosto, percebi que toda a comida que lá estava, tinha se estragado em virtude da vaga de calor que aquele dia nos tinha oferecido…depois do banho frio, preparei a água para o chá, torcendo para que aqueles 2 Hz de energia se aguentassem até à hora do chá e da dormida. Consegui, mas fui para a cama com uma firme resolução sobre aumentar a minha renda!

Pois, foi assim que me vi, mais rápido do que “de repente”, com três empregos e a faculdade no final do dia laboral.

Lembrei-me de consultar a um dos meus docentes sobre o assunto. Ele ofereceu-me uma ajuda: Pediu, oficialmente, à Directora do Departamento de Economia da Direcção de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Sofala, onde eu era o responsável pelo Sector de Estatísticas, que me dispensasse para actividades da Faculdade, pelo período de 3 meses. A sorte continuava do meu lado, pelo que, que a Directora cedeu, com a condição de que mantivesse o sector funcional e tivesse disponibilidade para as eventuais emergências do departamento. Assinei o termo de compromisso e no dia seguinte já estava no posto de trabalho dos Médicos Sem fronteira. Enquanto atendia ao rádio de comunicação entre os transportadores de material médico, os postos de abastecimento e as requisições dos verificadores de qualidade, ia fazendo telefonemas para os serviços Distritais, mercados de cereais e hortícolas, para fornecer os dados colhidos, aos meus colegas. A hora do almoço, fechava o contentor – meu escritório no MSF – e ia na minha motinha, até ao meu Sector, na Direcção de Agricultura, para actualizar a base de dados e deixar recomendações escritas para os meus colegas. Mas ainda havia a obra do Hospital Provincial…Para resolver esse assunto, passei a acordar mais cedo – as 3:30 da manhã saia de casa, e com uma gambiarra, comecei a fazer o esboço do que seria a minha obra para aquele Hospital.

E assim se passaram os 3 meses mais preenchidos daquele período – entre o Hospital, o posto de trabalho dos Médicos Sem Fronteira, a Agricultura e a Faculdade. Felizmente, consegui passar de ano e pagar todas as despesas que tive naquele ano. Sobrou-me ainda dinheiro, para que no final de ano, fosse a correr, de férias, para Inhambane, reconciliar-me com a namorada, que por essas alturas, já tinha sérias desconfianças sobre uma segunda e talvez terceira pessoa entre nós…
O ano passou super rápido para mim. Emagreci e reduzi drasticamente as saídas noturnas – embora nunca as tenha abandonado por completo – mas foi um período de muito aprendizado sobre mim mesmo.

Aprendi, por exemplo, que sempre há uma forma de resolver as questões que realmente importam para nós. Umas soluções demoram mais tempo do que outras, mas sempre há uma solução. Aprendi que a Universidade forma e formata, sim, mas – e talvez, sobretudo – prepara as pessoas para a vida.

Aprendi também que tenho dentro de mim, mais energia e determinação, do que imaginava…mas que ela não se mostraria, se eu não tivesse sido confrontado com a hipótese de perder as coisas que me eram mais queridas naquele período – a faculdade e a casa em que vivia.

Aprendi ainda que, embora tivesse que fazer as minhas coisas sozinho, podia sempre contar com as pessoas próximas para uma e outra ajuda ao longo do processo. Essas pessoas sempre estão por perto, prontas e disponíveis para ajudar. Mas antes, nós precisamos ajudarmo-nos a nós mesmos. E muitas vezes, essa auto-ajuda se resume a aprender a afastar o orgulho, o ego inflado…a ter referências internas e não externas (esquecer as opiniões dos outros e perceber nossos próprios sentimentos) e a lidar com os assuntos pelo que eles são.


Hoje, olho para trás e percebo que não seria como sou agora, se não tivesse passado fome naquele dia em que toda comida se estragou…”

Publicado por

Beatriz Manuel

Beatriz Manuel é licenciada em Medicina, esposa, mãe, estudante de doutoramento, docente e investigadora numa Faculdade de Medicina em Maputo, Moçambique. Ela leciona, investiga e tem interesse em Educação Médica, Saúde Familiar e Comunitária, Saúde Pública, Saúde Sexual e Reprodutiva, HIV / SIDA, temáticas de gênero, Evidência Baseada em Medicina para Influenciar Políticas. Ela possui mestrado em Educação de Profissionais de Saúde.

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