Estórias do período de formação: Clóves Boaventura… (Parte 1)

Boa tarde amigs@…

Espero que estejam bem… Tenho vos escrito pouco ultimamente, mas cá estou hoje para contar mais uma historia interessante e inspiradora…

Sem mais delongas, ai vai:

Sou o Clóves Eurides dos Santos Boaventura e gostaria de partilhar convosco, algumas das peripécias por que passei ao longo da minha formação académica e pessoal. Espero poder inspirar-vos ou no mínimo, contribuir para melhorar o humor de vocês.

Ora, aqui vamos nós!

Comecei a minha formação superior na cidade da Beira, para o curso de Economia e Gestão, na Universidade Católica de Moçambique. Foi para mim uma aventura no seu mais completo sentido, pois, foi lá onde me assumi homem (grande aventura, essa!). Foi lá onde comecei a viver sozinho e a gozar das liberdades que esse facto me conferia… mas, como mais tarde vim a perceber, toda liberdade acarreta responsabilidades inerentes. Sem responsabilidade, não há liberdade que perdure, aliás.

Felizmente, para mim, o percurso estudantil nunca se dissociou da vida social, com todas as vicissitudes daí advindas. Durante muito tempo olhei para meus colegas de curso, que pareciam ter a vida super-organizada, como se tivessem departamentos para todos os assuntos: tempo livre para fazer aquelas coisas importantes na vida, a família pagando as contas da faculdade, do alojamento, alimentação, etc., estudos organizados, etc., etc. Para mim, a vida era uma confusão de assuntos emaranhados entre contas atrasadas, namoradas malandras, testes surpresa e ressacas olímpicas…

Vivendo sozinho, num apartamento de 3 cómodos (tipo 1), uma mota pequena – a que carinhosamente chamávamos “lambreta” – um emprego de 8 horas diárias, a faculdade no período pós-laboral, e a muita disponibilidade para as muitas festas de fim de semana, tive, muito rapidamente que fazer as contas à vida. Para arcar com as despesas que esse tipo de vida exigia, tinha mesmo que aplicar alguns dos princípios do que cursava – Economia e Gestão!

Decidi então que precisava de aumentar a renda – outro emprego – e assim foi. Passado pouco tempo, soube de uma campanha de luta contra a cólera, promovida pelos Médicos Sem Fronteira (MSF) da Cidade da Beira. Fiz-me ao local, prestei provas e fui admitido para o posto de Fiel de Armazém, por uma jornada laboral de 8 horas! O ordenado era muito bom para aquele período, mas tinha o problema do horário, pois, eu já vendera meu serviço por 8 horas diárias, à Direcção Provincial de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Sofala.

Ainda não sabia como faria as duas coisas no mesmo período laboral, mas decidi que ficaria com os dois empregos. Assinei o contracto de imediato e passei o dia todo a pensar numa forma de manter as duas rendas na minha posse.

Entretanto – e porque na ânsia de obtenção de melhor renda, eu tinha batido todas as portas conhecidas e desconhecidas – mais uma oferta de trabalho surgiu: havia uma oportunidade para pintar o mural do Banco de Socorros do Hospital Provincial de Sofala, na cidade da Beira. Uma amiga, que sabia que eu gostava de artes, falou-me dessa oportunidade.

Tinha muito poucos trunfos a meu favor, principalmente porque eu nunca tinha pintado mural algum na minha vida! Mas, entre a busca de melhores respostas às possíveis perguntas da entrevista para a pintura, e a melhor forma de manter o emprego na Agricultura, sem perder a oportunidade dos MSF, ainda encontrei forma de descobrir qual material se usa para pintura de murais expostos à luz do dia.

Mais por premência de tempo para a conclusão da obra, do que pelas minhas respostas, ou qualificações, acabei ficando com a obra de pintura do mural do Banco de Socorros do Hospital Provincial de Sofala.

O responsável pelo trabalho levou-me a ver o muro e apresentar o pessoal com quem deveria deixar o material de pintura, pedir acesso ao local, etc. A obra era gigantesca para a minha qualificação (cerca de 45 metros de muro virgem), mas não fraquejei. Esse emprego, pelo menos não obrigava a presença ininterrupta. Eu poderia fazer o meu próprio horário, desde que apresentasse a obra no prazo acordado.

Voltei mais uma vez para minha casinha, e de repente vi-me com três empregos, cada um com sua exigência, a maioria das quais eu não era capaz de satisfazer.

Bom, até agora, parecerá ao leitor que há em mim algo de muito resiliente ou pelo menos, fora do comum… bem, deixem–me desfazer os possíveis equívocos e explicar detalhadamente, o que, no princípio, quis dizer com ”as despesas que esse tipo de vida exigia”.¨

Bom, amig@s, hoje a história do Clóves termina por aqui… Continua na próxima publicação… Aguardo por vós e pelas vossas histórias…

Publicado por

Beatriz Manuel

Beatriz Manuel é licenciada em Medicina, esposa, mãe, estudante de doutoramento, docente e investigadora numa Faculdade de Medicina em Maputo, Moçambique. Ela leciona, investiga e tem interesse em Educação Médica, Saúde Familiar e Comunitária, Saúde Pública, Saúde Sexual e Reprodutiva, HIV / SIDA, temáticas de gênero, Evidência Baseada em Medicina para Influenciar Políticas. Ela possui mestrado em Educação de Profissionais de Saúde.

2 opiniões sobre “Estórias do período de formação: Clóves Boaventura… (Parte 1)”

    1. Sim, também penso assim, Tendayi! Um emprego que satisfaça tem que realizar o indivíduo.

      As motivações usadas para a actualidade aprisionam mais do que satisfazem. A vida de trabalho-contas-diversao, sabe a sobrevivência. Hoje queremos viver plenamente..ir para além do que nos tem sido ensinado, descobrimo-nos.

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