Reflexão sobre consequências do abuso/assédio sexual…

———– English version below ———

Boa noite amig@s…

Hoje trago uma reflexão…

Exactamente a uma semana atrás, uma estudante minha contactou-me a pedir que tivesse um encontro comigo.

Veio-me logo a cabeça que ela queria falar sobre algo que não estava a correr bem com os estudos dela… Mas… me enganei… O que ela queria conversar comigo era algo que eu não imaginava e que acabou com o meu dia… Algo que me deixou a reflectir até hoje…

Depois da conversa eu tinha que voltar ao trabalho. A tarefa que tinha que fazer naquele dia exigia muita concentração, coisa que não conseguia ter depois do que ouvi…

No fim do dia, conversei com o meu marido sobre o assunto e ele também ficou algum tempo a reflectir. Perguntei a ele o que achava de partilhar esta experiência no meu blog e concordou.

Reflecti por mais alguns dias e perguntei a estudante se podia partilhar a história sem que a identificasse. Ela felizmente concordou.

Vou resumir a história me concentrando na minha reflexão por estes dias…

A jovem me pede para conversar sobre a vida sentimental dela… fiquei um bocado embarassada ao perceber que o assunto não tinha nada a ver com a vida acadêmica mas percebi que ela estava mesmo aflita… não vou entrar em detalhes sobre o que ela me contou mas o que me deixou a reflectir foi o seguinte:

Ela diz que quando era mais nova tinha amigos que tinham “brincadeiras de adultos”. Tentei perceber o que ela queria dizer e percebi que ela falava de questões relacionadas com actividade sexual.

Conta ela que se lembra que teve algum contacto com estes amigos do sexo masculino, mas que não se lembra exactamente o que terá acontecido. O que ela se recorda é que a medida que ela foi crescendo, esses “amigos” iam gozando com ela e riam-se dela no meio da rua contando sobre alguns episódios de índole sexual que supostamente passaram com ela… O pior nessa história é que ela foi crescendo e não sabe dizer se já teve o primeiro contacto sexual, ou seja em linguagem popularmente conhecida, ela não sabe dizer se “é virgem”… Segundo ela, isto lhe atormenta desde a adolescência… Ela chora, perde noites a pensar no assunto, porque segundo a sua crença religiosa é importante que se case “virgem”…

Uff, isto pode parecer ridículo para muitos. Muita gente pode se questionar como é que uma jovem, adulta, não sabe dizer se é virgem? Ela própria antes de me contar ficou bastante indecisa e dizia frases como: eu acho que sou maluca, eu acho que sou parva… e hesitava em me contar o que tanto a afligia…

O que mais me aflige é que esta questão a tem atormentado estes anos todos e tem interferindo na vida sentimental dela…

“E se eu conhecer alguém, decidirmos nos casar e ele descobrir que não sou “virgem”…”

Não vou debater sobre a parte clínica deste assunto mas…

Quantas mais pessoas no mundo vivem com estes demónios? Quantas mais vítimas de abuso/assédio sexual têm este tipo de traumas?

 

———- English version ———-

Reflections on the consequences of sexual abuse/harassment…

Good evening, friends…

Today I’m bringing a reflection…

Exactly a week ago, a student of mine contacted me and requested a meeting with me.

It came to me quickly that she wanted to talk about something that was not going well with her studies … But … I was wrong … What she wanted to talk was something I did not imagine and that ended my day … Something that let me reflecting until today …

After the conversation, I had to get back to work. The task I had to do that day required a lot of concentration, something I could not do after what I have heard…

At the end of the day, I talked to my husband about it and he also took some time to reflect. I asked him what he thought of sharing this experience on my blog. He agreed.

I have reflected for a few more days and asked the student if she could share the story anonymously. She happily agreed.

I will summarise the story by focusing on my reflection…

The young woman asked me to talk about her sentimental life … I was a little embarrassed to realise that the subject had nothing to do with her academic life but I realised that she was really distressed … I will not go into detail about what she told me. What I was left to reflect was the following:

She says that when she was younger she had friends who had “adult plays”. I tried to figure out what she meant and realised that she was talking about sexual activity issues.

She recalls that she has had some contact with these male friends, but she does not remember exactly what happened. What she remembers is that as she grew up, these “friends” used to laugh at her in the middle of the street talking about some sexual episodes that supposedly happened with her …

The worst thing about this story is that she has grown up and does not know if she has had her first sexual contact, or in popular language, she cannot say if she is a virgin … According to her, this has been tormenting her since she was a teenager … She cries a lot when she thinks about it because according to his religious belief it is important to get married as a “virgin” …

Uff, this may seem ridiculous to many. Many people may wonder how a young woman, an adult, cannot tell if she is a virgin or not? Before she told me about her feelings she was very hesitant and said phrases like: I think I’m crazy, I think I’m silly … and hesitated to tell me what was so distressing …

What plagues me most is that this issue has plagued her all these years and has interfered in her sentimental life… “And if I meet someone, we decide to get married and he’ll find out that I’m not a “virgin”…”

I will not discuss the clinical part of this subject but…

How many more people in the world live with these demons? How many more victims of sexual abuse/harassment have this type of trauma?

———– English version below ———

Publicado por

Beatriz Manuel

Beatriz Manuel é licenciada em Medicina, esposa, mãe, estudante de doutoramento, docente e investigadora numa Faculdade de Medicina em Maputo, Moçambique. Ela leciona, investiga e tem interesse em Educação Médica, Saúde Familiar e Comunitária, Saúde Pública, Saúde Sexual e Reprodutiva, HIV / SIDA, temáticas de gênero, Evidência Baseada em Medicina para Influenciar Políticas. Ela possui mestrado em Educação de Profissionais de Saúde.

2 opiniões sobre “Reflexão sobre consequências do abuso/assédio sexual…”

  1. É muito triste constatar que narrativas deste tipo fazem parte do nosso quotidiano e passam despercebidas…
    À semelhança desta história, ouvi também na primeira pessoa algo muito similar. Mas no caso, as brincadeiras eram com um tio e ela realmente não sabe até que ponto o abuso foi perpetrado, mas sabe que foram varias as vezes em que esteve em presença do tal “tio”, amigo dos pais, sozinha!

    Gostar

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