O início da minha carreira: primeiros desafios em ser mulher na academia.

Boa tarde!


Espero que esteja tudo bem.


Antes de começar a falar sobre o início da minha carreira, gostaria de recordar que estou disponível para publicar a sua história.


Agora, indo para o início da minha carreira…


Como vos tinha falado, comecei a trabalhar numa Faculade de Medicina cerca de 7 meses após a conclusão dos estudos. Fui indicada como a coordenadora do grupo de recém-graduados que ia trabalhar para introduzir o currículo que foi usado durante a nossa formação. Esta actividade não foi fácil, já que havia muita contradição relativamente a introdução desta metodologia naquela Faculdade. Devido a essa contradição, a sobrecarga de trabalho para o nosso grupo aumentou e por vezes dávamos aulas cerca de 10 horas seguidas para diferentes grupos de estudantes.


As contradições se manifestavam de várias formas – não vou aqui detalhar-, mas o que mais me marcou foi o que ouvia de alguns docentes mais velhos, principalmente do sexo masculino.


Os comentários que mais me marcaram foram: “Quem essa miúda pensa que é?” “Eu sou PhD (doutorado), quem és tu para me informares que devo dar aulas a estudantes do primeiro ano?”, “Quantos anos tens? … Eu dou aulas nesta faculdade muito antes de teres nascido!”… Mas tudo o que fazia era seguir ordens dos meus superiores.


Este cenário durou cerca de 4 anos. Já devem imaginar que me deparei com mais uma crise depressiva – mas desta vez foram 4 anos… lembro-me que uma tia ligou para mim a dizer para eu largar o meu trabalho, que eu era muito nova e que não tinha que passar por aquilo. O mais engraçado foi que ela nem ouviu esses comentários através de mim. A outra tia – que já mencionei que iam ouvir falar muito dela 😊 – ligou-me e disse: enquanto a pessoa que te colocou nesse cargo não disser para tu saíres, não sai!!! Acho que já ouviram algo parecido com essa frase nas minhas publicações anteriores 😊. E foi o que fiz! Só sai quando resolveram fechar aquele gabinete e escolhermos os departamentos onde gostaríamos de trabalhar. Eu e uma colega estamos no mesmo departamento desde essa altura.
Violência sexual/assédio sexual no ambiente académico…

Uff, sobre isto há muito que se dizer… Eu creio que sofremos assédio sexual cerca de pelo-menos uma vez por mês – infelizmente ainda não temos dados concretos sobre isto… Eu sofri logo nos primeiros meses do início da minha carreia:

No corredor da entrada da faculdade, fui agarrada pelos ombros e forçada a dar um beijo – na boca – a um docente! – nesse dia mais uma vez dei aulas até tarde e a faculdade estava deserta. Graças a Deus, consegui evitar que isso acontecesse. Seriamente empurrei o docente e disse: NUNCA MAIS VOLTES A FAZER ISSO!!! EU ESTOU AQUI PARA TRABALHAR!!!
Bem, ele nunca mais voltou a fazer algo parecido, mas tenho sofrido assédio sexual até hoje através de outros docentes e funcionários. Creio que esta seja uma realidade de cada um de nós.

Mas o que é assédio sexual?

Apesar de haver muita contradição sobre assédio sexual, muita gente ainda não sabe o que é. Acontece também que muita gente não consegue distinguir entre assédio sexual e intenção de iniciar uma relação íntima/romântica.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) inclui o assédio sexual na definição de violência sexual. Segundo a OMS a violência sexual é definida “todo acto sexual, tentativa de consumar um acto sexual ou insinuações sexuais indesejadas; ou acções para comercializar ou usar de qualquer outro modo a sexualidade de uma pessoa por meio da coerção por outra pessoa, independentemente da relação desta com a vítima, em qualquer âmbito, incluindo o lar e o local de trabalho”.

A OMS refere ainda que “a coerção pode ocorrer de diversas formas e por meio de diferentes graus de força, intimidação psicológica, extorsão e ameaças. A violência sexual também pode acontecer se a pessoa não estiver em condições de dar o seu consentimento, em caso de estar sob efeito do álcool e outras drogas, dormindo ou mentalmente incapacitada, entre outros casos.”

Continuo abaixo citando a OMS:

“A violência sexual abrange:
 Estupro dentro de um relacionamento;
 Estupro por pessoas desconhecidas ou até mesmo conhecidas;
 Tentativas sexuais indesejadas ou assédio sexual, que podem acontecer na escola, no local de trabalho e em outros ambientes;
 Violação sistemática e outras formas de violência, particularmente comuns em situações de conflito armado (como a fertilização forçada);
 Abuso de pessoas com incapacidades físicas ou mentais;
 Estupro e abuso sexual de crianças;
 Formas “tradicionais” de violência sexual, como casamento ou coabitação forçada.

Há muitas razões pelas quais as mulheres não denunciam a violência sexual:
 Falta de apoio;
 Vergonha;
 Medo de represálias;
 Sentimento de culpa;
 Receio de que não acreditem nela;
 Temor de ser maltratada ou socialmente marginalizada.”

Quais são as consequências da violência sexual para a saúde?

Exemplos de consequências da violência sexual para a saúde das mulheres:
 Gravidez não planeada;
 Aborto inseguro;
 Disfunção sexual;
 Infecções sexualmente transmissíveis — incluindo HIV;
 Fístula traumática;
 Depressão;
 Transtorno por stress pós-traumático;
 Ansiedade;
 Dificuldade para dormir;
 Sintomas somáticos;
 Comportamento suicida;
 Transtorno de pânico.

Muitas vezes, a violência sexual resulta em morte, cometida pelo agressor ou pelos problemas de saúde causados pela própria agressão, como suicídio e abortos inseguros.”

A informação acima consta no link https://nacoesunidas.org/oms-aborda-consequencias-da-violencia-sexual-para-saude-das-mulheres/

Tipos de Assédio Sexual no ambiente de trabalho

Passo a citar a informação no link http://www.far.fiocruz.br/wp-content/uploads/2018/07/Cartilha_assedio_moral_e_sexual.pdf

Assédio sexual por chantagem – definido quando existe exigência por parte de um superior hierárquico a um subordinado para que preste a actividade sexual como condição para a manutenção do emprego/função, ou obtenção de benefícios na relação de trabalho. Este tipo de assédio sexual está diretamente vinculado ao abuso de poder.

Assédio sexual por intimidação – Caracteriza-se por incitações sexuais inoportunas, solicitações sexuais ou outras manifestações da mesma índole verbais ou físicas, o que acaba por prejudicar a actuação de uma pessoa ou criar uma situação ofensiva, hostil, de intimidação ou abuso no ambiente de trabalho. Neste caso, o elemento poder é irrelevante sendo um tipo comum de assédio sexual praticado por colega de trabalho, estando ambos na mesma posição hierárquica.

O assédio sexual é acompanhado também de humilhações, insultos e intimidações. É importante reiterar que em todos os casos esse assédio se configura por apresentar característica sexual. O assédio sexual pode ocorrer entre pessoas de diferentes orientações sexuais, raças, classes ou entre gerações.”

Diferença entre assédio sexual e moral no trabalho

“Assédio moral é uma conduta abusiva, frequente e repetitiva que se manifesta por meio de palavras, actos, gestos, comportamentos ou de forma escrita, que humilha, constrange e desqualifica a pessoa ou um grupo, atingindo a sua dignidade e saúde física e mental, afectando a sua vida profissional e pessoal.” http://www.far.fiocruz.br/wp-content/uploads/2018/07/Cartilha_assedio_moral_e_sexual.pdf

Exemplos de assédio sexual

 Alguma ameaça, insinuação de ameaça ou hostilidade, convidando-o para manter relações sexuais, fazendo lhe sinais sinuosos, carícias, propostas de permuta de notas contra o assediado(a); entre outros.
 Pedidos de favores sexuais pelo superior hierárquico com promessa de tratamento diferenciado/promoção em caso de aceitação;
 Ameaças ou atitudes concretas de represálias no caso de recusa pode perder emprego ou benefícios;
 Abuso verbal ou comentário sexista sobre a aparência física.
 Atitudes embaraçosas;
 Perguntas indiscretas sobre a vida privada do trabalhador.

Tratamento Legal em Moçambique

Código Penal
Artigo 399

  1. Aquele que, constranger sexualmente alguém com finalidade de favores ou benefícios de qualquer natureza, será punido com pena de prisão até um ano e multa correspondente.
  2. Aquele que, abusando da autoridade que lhe conferem as suas funções, assediar sexualmente outra pessoa por ordens, ameaças ou coacção, com finalidade de obter favores ou benefícios de natureza sexual, será punido com pena de prisão até um ano e multa correspondente.
  3. Aquele que, constranger alguém com intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerente à exercício de emprego, cargo ou função, por meio de ameaça ou coacção, será punido com a pena de um a dois anos de prisão.
  4. Incorre na mesma pena do número anterior, quem cometer o crime:
     Valendo-se de relações domésticas de coabitação ou de hospitalidade;
     Com abuso ou violação do dever inerente ao ofício ou ministério.”

A informação acima foi retirada do Curso POOG 2018: Centro de Coordenação dos Assunto de Género da Universidade Eduardo Mondlane https://www.uem.mz/index.php/investigacao/centros-investigacao/centro-de-coordenacao-dos-assuntos-do-genero

Conforme podem ver, há tratamento legal para a violência sexual e o assédio sexual. O que se recomenda, é que tenhamos provas do que aconteceu. Fotografias, gravações – por exemplo usando o telefone -, mensagens, e-mails, entre outros, podem servir de provas. No momento da denúncia temos que ter estas provas. Muitas vezes o assédio ocorre d@s docentes/funcionári@s para @s estudantes, mas já pude testemunhar estudantes confessando que são @s perpetradores.

Uma das grandes críticas é que mesmo reunindo todas a provas e denunciando, muitos casos são arquivados sem nenhuma criminalização d@ perpretador/a por vários motivos.

Confesso que também nunca denunciei nenhum dos casos de assédio que sofri e que nem tenho provas. Mas espero que com esta publicação possamos ficar tod@s atent@s.

Por hoje é tudo!

Agradeço comentários e que partilhem as vossas histórias sobre qualquer uma das publicações.

Publicado por

Beatriz Manuel

Beatriz Manuel é licenciada em Medicina, esposa, mãe, estudante de doutoramento, docente e investigadora numa Faculdade de Medicina em Maputo, Moçambique. Ela leciona, investiga e tem interesse em Educação Médica, Saúde Familiar e Comunitária, Saúde Pública, Saúde Sexual e Reprodutiva, HIV / SIDA, temáticas de gênero, Evidência Baseada em Medicina para Influenciar Políticas. Ela possui mestrado em Educação de Profissionais de Saúde.

4 opiniões sobre “O início da minha carreira: primeiros desafios em ser mulher na academia.”

  1. Bom dia obrigada Doutora pela partilha de um assunto muito delicado como esse. Na verdade todas nós fomos e somos vítimas de assédio sexual em toda nossa vida. Eu fui vítima de assédio várias vezes, com meus superiores e colegas de trabalho.
    Por nunca ter aceite o fenómeno, já fui vítima de uma transferência de meu local de trabalho por não seder estas tentações. Fui sempre resistente a qualquer destas tentações, mas não é fácil lidar com este fenómeno.

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  2. Olá é uma publicação pertinente e útil.

    Segundo a minha experiência como homem, estudante, trabalhador e cidadão Moçambicano, partilho o seguinte:
    1.Homem- existe uma pré disposição predadora de manter relações sexuais com mulheres, e em particular quanto mais bonitas e novas forem. A diferença de homem para homem de praticar qualquer tipo de abuso ou assédio sexual, reside na sua capacidade de ser fiel aos limites por sí estabelecidos, baseados em princípios e construções familiares, sociais e psicológicas. Contudo, segundo as definições citadas no artigo, acredito que todo Homem em algum momento, comete pelo menos uma forma de assédio sexual.
    2. Estudante – acontece todos dias e a forma de interpretação do fenómeno pelo estudante, varia se acontece na zona urbana, suburbana ou rural. Várias vezes há “paqueras”, e o estudante nem sabe que está numa situação de crime. Existe uma prática comum de raparigas assediar os professores em troca de notas,
    como também de professores que chantageiam as estudantes, pelo mesmo.
    3. Trabalhador – infelizmente muita gente estuda para ter emprego e um bom salário, sem se preocupar profundamente com o Know How. Infelizmente, muita gente quer emprego, mas não quer trabalho. Situações, que na minha opinião propiciam com que estas pessoas, permitam ou até promovem situações de abuso e assédio sexual, para manterem-se nos postos e compensarem o défice.
    4. Cidadão – hoje em dia, vivemos crise de valores morais, onde dá-se primazia a bens materiais. O imediato e superficial é mais valorizado, daí desemboca toda uma cadeia que propicia ao fenômeno de abuso e assédio sexual.

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    1. Muito obrigada pelo seu comentário! Ralmente no trabalho que temos feito ouvimos muito sobre o que esteve a comentar. Agradeço o seu comentário e creio que irá benificiar também a outr@s leitor@s.

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