Já sou médica! … e agora?

Bom dia!!!!

Espero que estejam tod@s bem!

Mais uma vez agradeço pelos vossos comentários e sugestões para melhorar o blog!

Hoje é o dia Internacional de Mulheres e Raparigas na Ciência – 11 de Fevereiro! Para celebrar convosco este dia, vou falar sobre o início da minha carreira, depois vou partilhar um pequeno texto que adaptei de inglês para português e alguns comentários de um amigo neste âmbito- para reflexão.

Indo ao início da minha carreira…

Voltando um bocado atrás, no quinto ano do meu curso de medicina, tive um momento não muito bom… Pela primeira vez na vida comecei a duvidar do meu sonho de infância. Sim, o sonho de ser médica!

Então, o que aconteceu? Na altura, na faculdade onde estudei, a partir do segundo ano começávamos a interagir com pacientes nos centros de saúde, maioritariamente peri-urbanos, e fazíamos seguimento da saúde de uma comunidade nas proximidades da faculdade. No quarto ano já atendíamos pacientes na clínica da faculdade, a partir do quinto ano fazíamos estágio num hospital central e no sexto ano também fazíamos estágio rural. Este tempo de interacção com pacientes e com a comunidade foi um momento maravilhoso para mim, sendo que estava mais próxima de concretizar o meu sonho! 🧐

Mas, durante o meu quinto ano, nas férias semestrais, chamei aos meus pais para conversar – na casa dos meus pais, assunto sério se tratava na sala de visitas! 😁 Nos sentamos e fui directa ao assunto: mãe, pai, já não quero mais continuar com o curso de medicina!!! Se eu pudesse ler a quantidade de palavras que passaram pela cabeça dos meus pais… Mas tudo que lhes saiu – e em coro – foi: O QUÊ!!! 😅 Então começo a explicar: isto não era bem o que eu pensava… Entrar numa enfermaria e ver três doentes na mesma cama, em colchões entre as camas, nos corredores dentro dos quartos e em colchões fora dos quartos?… Hospitais com falta de medicamentos essenciais, onde as vezes tínhamos que usar antibióticos mais caros porque não tínhamos os mais baratos? Onde o paciente é internado por malária e depois tem de passar a noite toda a matar mosquitos?… e outras muitas coisas, que muitos de nós conhecemos… Os meus pais se comoveram com o que relatei por cerca de 30 minutos e no fim disseram: está bem. Termina o curso e depois vais decidir. Tu já estás no quinto ano, não podes desistir agora! Eu aceitei o desafio! 💪🏾

O que relatei acima, aconteceu por causa da percepção que tinha sobre ser médic@. Para mim – e para muitos – ser médic@ é apenas trabalhar numa unidade sanitária e ver doentes. Na minha mente, tinha apenas uma alternativa, terminar o curso de medicina e ir apresentar-me ao Ministério de Saúde para saber em que distrito e em que unidade sanitária seria colocada. Isso é o que a maioria do pessoal de saúde faz. Mas, no sexto ano da minha formação, eu e três colegas do curso fomos informados que haviam quatro vagas a serem preenchidas na faculdade onde trabalhamos até hoje. Ainda não tinha noção do que isso implicava, mas pelo-menos comecei a ver que havia outras alternativas após a conclusão da licenciatura em medicina. Nós aceitamos o desafio, mas ainda tínhamos a missão de terminar o curso!

Depois de terminarmos o curso, voltamos a Maputo e entramos em contacto com a faculdade onde íamos trabalhar e nos informaram que tínhamos que aguardar pelos procedimentos administrativos. Nisto, qual não foi o nosso espanto quando fomos solicitados pelo Ministério da Saúde! 😲. Ficamos nesse dilema – sem trabalhar e sem saber para onde íamos – cerca de sete meses. Por fim, ficamos na faculdade.

Mais tarde percebi que a outra opção após a conclusão da licenciatura seria a de trabalhar numa instituição de pesquisa. Mas há muitas outras saídas para a área de medicina dependendo também da especialidade que fazemos depois.

Lembro-me que frequentemente devo responder a seguinte pergunta: porquê és médica e não trabalhas no hospital. A resposta está muito ligada ao desencorajamento que tive no quinto ano da licenciatura. Eu prefiro dar aulas para ensinar aos estudantes como ser um médico que se preocupa com a comunidade e com a promoção de saúde; e buscar evidências para saber o que leva a que tenhamos as enfermarias cheias, falta de medicamentos, as comunidades a não acatarem as actividades de promoção de saúde, etc., e influenciar politicas promovendo a saúde. A ideia é que prefiro fazer o melhor para prevenir que tenhamos pessoas nas unidades sanitárias ou mesmo doentes nas suas casas ou comunidades.

Só para vos dar uma ideia, para além de ser docente universitária, sou pesquisadora e trabalhei em dois centros de saúde e um hospital geral.

Bem, esta foi a minha história relativamente ao início da minha carreia na academia. Gostaria de partilhar a sua experiência? Pode fazê-lo aqui se se sentir confortável ou pode me contactar para partilhar algo que não se sinta confortável em fazer em público.

Eis o que diz a ONUmulheres no dia de hoje:

“Menos de 30 por cento dos pesquisadores em todo o mundo são mulheres. Com muito poucas mulheres em cargos de decisão e com empregos bem pagos, na área dos STEM, a lacuna de género em STEM tem profundas implicações para o futuro da economia global. Por exemplo, as mulheres podem conseguir apenas um novo trabalho na área de STEM por cada 20 perdas de emprego, em contraste com os homens, que conseguem um emprego na área de STEM para cada quatro empregos perdidos. Políticas aperfeiçoadas de recrutamento, de retenção e promoção, assim como aprendizagem contínua e qualificação para as mulheres, podem ajudar muito a diminuir essa lacuna.” http://www.unwomen.org/en/news/in-focus/international-day-of-women-and-girls-in-science#social

Globalmente, a inscricao de estudantes do sexo feminino é particularmente baixa em TIC (3%), ciências naturais, matemática e estatística (5%) e em engenharia, sector industrial e construção (8%). http://www.un.org/en/events/women-and-girls-in-science-day/

Ainda no âmbito da celebração do dia Internacional de Mulheres e Raparigas na Ciência, coloco um pequeno debate que houve na semana passada num dos grupos de WhatsApp em que faço parte.  O debate surgiu porque eu os convidava para seguirem as minhas publicações neste blog e um amigo escreveu:

“A mesmice de sempre, os homens em terceiro plano…

Eu repondi: nunca! Aqui falo de números! Os números é que me incentivam a criar o blog!!!

Encurtando o debate, outro amigo meu, o Vidhane, disse o seguinte:

A “luta” por igualdade não é a do homem. É da mulher…infelizmente. O que a própria mulher ainda não percebeu, é que ela não quer igualdade, nem oportunidade, nem qualquer outra coisa. Ela quer valorização do “ser-mulher”…

Mas faz a luta de forma contraprodutiva. Há uma luta velada promovida pelas mulheres/feministas…em que elas são suas próprias inimigas…e nem se apercebem. A mulher é o centro da humanidade. Mas na sociedade masculinizada e materialista (que elas, activamente ajudam a construir), esse papel natural e até social (gerar, gerir e nutrir vida) não é devidamente valorizado. Portanto ela desvia-se do real objectivo – valorizar o que é – para o supérfluo – valorizar o que pode fazer/ter, ou igualar-se ao homem…

O “aconselhável” seria que, ao invés de se auto-promover na esfera de actuação social do homem, ela se valorizasse pelo que é – uma rainha natural. Ninguém vai valorizar suficientemente a mulher. Nada do que for feito para enaltece-la (exalta-la é a palavra do dia) será suficiente com o passar do tempo…porque ela não vê/percebe o seu próprio valor. Precisa de um espelho, de alguém que lhe diga das suas virtudes. E esse alguém será sempre o “próximo-mais-admirado-por-ela. Só quando ela amar-se pelo que é, ela ficará independente do que acontece ao seu redor – como acontece com as figuras centrais. E terminando ele disse: Este tema é longo!

Qual é o vosso sentimento relativamente ao que diz a ONU na citação que coloquei sobre o dia que se celebra hoje e o texto do meuamigo Vidhane Vidhane, obrigada por me autorizares a colocar as tuas palavras no meu blog.

Nas próximas publicações vou falar do que implica ser mulher na academia.

Até a próxima!

Publicado por

Beatriz Manuel

Beatriz Manuel é licenciada em Medicina, esposa, mãe, estudante de doutoramento, docente e investigadora numa Faculdade de Medicina em Maputo, Moçambique. Ela leciona, investiga e tem interesse em Educação Médica, Saúde Familiar e Comunitária, Saúde Pública, Saúde Sexual e Reprodutiva, HIV / SIDA, temáticas de gênero, Evidência Baseada em Medicina para Influenciar Políticas. Ela possui mestrado em Educação de Profissionais de Saúde.

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