Meu percurso na formação académica… Escolhi Medicina!!!

Bom dia!!!

Para Moçambique, espero que tenham passado bem o feriado e final de semana longo (Dia 3 de Fevereiro, dia dos Heróis Moçambicanos) e para a Matola, continuação de bom e super final de semana longo neste dia da Matola!!!

Ufff… passei ao primeiro teste!!!!! Que alivio!!! A minha primeira publicação no blog foi um sucesso graças aos vossos comentários e suporte!!! Muito obrigada à tod@s!!!

Recebi as vossas sugestões e recomendações, e farei o possível para melhorar. Peço que continuem a ajudar-me nesta caminhada e que contribuam com perceções, sugestões, dúvidas, e até medos e incertezas, pois pretendo crescer com o vosso apoio e espero poder ajudar alguém a crescer.

Indo ao tema…

Bem, segundo relatos da família 😊, com apenas dois anos de idade decidi que queria ser médica!!! Porquê? Não sei…, mas talvez o facto de ter avó – já falecida – enfermeira, três tios médicos (duas do sexo feminino e um do sexo masculino) possa ter influenciado…

Mas como foi o percurso?

Comecei a escola primária com 5 anos de idade. Ainda não tinha a dimensão do que era necessário para seguir o curso de Medicina – e que devia seguir a área de ciências – mas graças a Deus sempre fui de boas notas… até que… na décima segunda classe – até onde vai o ensino pré-universitário em Moçambique – levei com uma faca no peito!!! Minha primeira deceção na vida académica!!! Reprovei a matemática ☹!!! O que teria acontecido comigo?! Reprovei a disciplina que mais detesto!!! 😭

Mas voltando atrás… detesto matemática? 🤔. Vou vos contar o que aconteceu…

A minha professora de matemática era muito conhecida na época… para ser sincera, não me recordo do nome dela, mas lembro-me bem dela e também de um filho dela que estudava na mesma escola secundária. Lembro-me da forma característica dela de falar e de se mover na sala de aulas.

Alguns meses depois, percebi que a turma de por aí 50 alunos – ou mais – estava dividida em duas partes: uma de um grupo de 4 alunas – lembro-me muito bem delas, com algumas até agora me comunico – e outra constituída pelo resto da turma! E adivinhem em que grupo estava? …⏱️ Isso, no grupo “resto da turma”!! 😧. A aula de matemática era direccionada para o grupo de 4 alunas … Nós outros, com ou sem dúvidas, lá estávamos a ouvir a aula para as 4!!

Recordo-me muito bem de repetidas vezes a professora se dirigir a mim e dizer: Beatriz, tu vais CHUMBAR! E eu a perguntar-me: mas porquê vou chumbar, estamos no início do ano, ainda não fizemos nenhum teste… será que ela é vidente? 🤨. Vidente ou não, foi o que aconteceu. A primeira vez que reprovo na vida foi apenas a disciplina de matemática!!

E agora? Bem, a etapa seguinte já devem imaginar… Tinha 17 anos, reprovei a “disciplina que mais detesto” e estou na fase pré-adulta… Meus amig@s… Entrei numa depressão que nem quero lembrar… estava revoltada com todo o mundo!

Os mais pais tentaram convencer-me a inscrever para o ano seguinte e fazer a disciplina como aluna interna para ver se ia com boa nota para o exame. Eu respondi: ir todos os dias à escola para ter aulas de uma disciplina que detesto e com aquela professora? Prefiro ficar em casa!!!! E foi mesmo assim, fiquei um ano em casa, deprimida, revoltada com todo o mundo. Infelizmente quem pagou por isso foram os meus pais e familiares mais próximos! Vai neste momento o meu grande pedido de desculpas em público… 😔.

Foi um ano de muita rebeldia… nesse ano, conheci pessoas que ficaram meus amigos para a vida inteira – uma do sexo feminino e dois do sexo masculino – acho que de certa forma todos nós estávamos passando por um momento de descoberta interna e muitas lutas interiores. Andávamos juntos o dia todo – nenhum de nós estava a estudar na altura por motivos diferentes.

A convite de um primo meu, tornei-me modelo – top model – e depois convidei aos meus três amigos para também o serem, e fomos chamando mais gente para o grupo. Aquilo passou a ser “vida de modelo”: ensaios, desfiles de moda, festas, etc… Sentíamo-nos “luzes da ribalta” 🍸– coisa que combinava bem com a fase que estávamos a passar. Eu agradeço que nenhum de nós se meteu em coisas ilícitas, se bem que fomos tentados de todas as formas possíveis e imagináveis por várias pessoas e ambientes em que andávamos.

No final desse ano, decidi me separar do grupo e ir para a Beira para me preparar para o exame de matemática e depois o exame de admissão ao ensino superior – vivia lá uma das minhas tias médicas que falei logo no início, que admiro e que é uma grande influencia para o que sou profissionalmente. Vão ouvir falar muito dela nas minhas publicações 😅 Infelizmente, depois de algumas semanas decidi voltar à Maputo… não sei explicar porquê, talvez tenha sido ainda influencia do momento que estava a passar. Mas voltei, preparei-me para o exame de matemática e passei!

Próximo passo, fazer o exame de admissão para o curso dos meus sonhos, MEDICINA!!! Yay!!!

Preparei-me para o exame de admissão com o mesmo professor que me ajudou no exame de matemática e concorri para Medicina na universidade pública mais antiga de Moçambique. A minha média para o exame foi de 13 em 20 valores, mas não foi suficiente para entrar para o curso. Nisto, a minha tia médica que vivia na Beira liga para a minha mãe e diz que vai se abrir uma Faculdade de Medicina privada na Beira e que o ensino seria bom. Perguntou a minha mãe se achava se eu estaria interessada. A minha mãe disse logo a ela para falar comigo – já que estava rebelde 🙃 – sem hesitar aceitei a proposta. Essa faculdade tem o ano propedêutico ou ano zero, onde todos os estudantes que se inscrevem entram e são selecionados durante o um ano tendo em conta as vagas na faculdade e a nota mínima – que era de 12 valores – para passar as disciplinas de português, matemática, física, química, biologia, informática e inglês. A minha turma era a primeira do curso. Entramos no ano zero cerca de 60 estudantes, passamos para o primeiro ano cerca de 30 e apenas 16 graduamos como o primeiro grupo do curso de Medicina daquela faculdade.

Imaginem como me senti que havia matemática na lista das disciplinas!!!! Entrei em pânico!!! Lembro-me de ter ido a procura do professor de matemática e pedir para falar com ele antes mesmo do início das aulas. Eu disse: professor, gostaria de falar consigo. Ele muito calmo e sereno disse: sim?… E eu: professor, eu tenho um problema com a matemática. Eu sou péssima á sua disciplina e para ser sincera não gosto muito dela… O professor continuou sereno e disse: Beatriz, eu vou te mostrar que és boa a matemática!!! E não é que me mostrou? Fui uma das melhores alunas da turma!!!! 😊 – professor Vumba, se estiver a ver esta publicação, muito obrigada por tirar este peso de mim!!! Conseguem ver a diferença entre este professor e a que tive na décima segunda classe?

O primeiro ano do curso correu muito bem. Estava em casa dos meus tios e com os meus primos mais novos. Mas, no final desse ano recebemos a informação que os meus tios tinham que voltar a Maputo por questões profissionais e vi-me a ter que me virar numa terra que acabava de começar a conhecer – apesar de já ter ido lá várias vezes passar as férias com os meus tios e primos, anteriormente.

Tinha 19 anos e fui à procura de uma casa para alugar… que martírio!!! Lá encontrei a casa. Parecia que estava tudo bem, mas com o andar do tempo comecei a ver os inúmeros problemas que tinha a casa! Fui enganada!!! Rancho por fazer, canalizador, carpinteiro, etc. para tratar da casa, e ainda por cima, ter que ter boas notas na faculdade. Foi horrível, entrei noutra depressão, chorava todos os dias que falava com os meus pais.

Passados alguns meses, uma amiga de Maputo que também estava lá a estudar, sugeriu que dividíssemos as despesas numa casa que elas estavam a viver. Desde lá, passamos a ser 6 meninas numa casa tipo três onde dormiam duas no mesmo quarto e dividamos as e tarefas. Eramos todas estudantes universitárias nos cursos de medicina e de economia. A adaptação também não foi fácil, e a choradeira para os meus pais continuava…. Recordo-me que numa das férias o meu pai disse que se eu quisesse podia voltar para Maputo. Eu respondi: só regresso depois de terminar!!! Foi uma decisão que me custou caro, já que também o dinheiro que recebia da minha mãe para as despesas da casa e dos estudos – o meu pai estava desempregado na altura – não era suficiente. Era o que ela podia dar…. Comer, viver e estudar, era um grande desafio para mim e para as minhas colegas.

Felizmente, no segundo ou terceiro ano da Faculdade, uma das nossas professoras perguntou se não gostaria de fazer parte de um núcleo de combate ao HIV que ia ser criado na faculdade. Aceitei a proposta. Começamos 5 e hoje só oiço falar de coisas boas do núcleo que agora tem vários membros. Por causa do nosso desempenho nas actividades do núcleo, foi-nos oferecida uma bolsa de estudos que pagava as propinas. Sendo assim, só precisava de dinheiro para as outras despesas. Os desafios financeiros não melhoraram muito, mas fiquei feliz por poder aliviar a minha mãe. Terminei o curso com essa bolsa, foi a primeira bolsa de estudos que recebi! E agradeço bastante!

Durante o curso fui convidada a dar aulas aos estudantes dos primeiros anos do curso.

Bem, este é o resumo do meu percurso até a minha licenciatura em Medicina. Espero que possa motivar a alguém! E como sempre, peço cometários, recomendações e sugestões.

Obrigada pela atenção!

Mais histórias nas próximas publicações!

Publicado por

Beatriz Manuel

Beatriz Manuel é licenciada em Medicina, esposa, mãe, estudante de doutoramento, docente e investigadora numa Faculdade de Medicina em Maputo, Moçambique. Ela leciona, investiga e tem interesse em Educação Médica, Saúde Familiar e Comunitária, Saúde Pública, Saúde Sexual e Reprodutiva, HIV / SIDA, temáticas de gênero, Evidência Baseada em Medicina para Influenciar Políticas. Ela possui mestrado em Educação de Profissionais de Saúde.

27 opiniões sobre “Meu percurso na formação académica… Escolhi Medicina!!!”

  1. A história de cada um é o carne de motivação para os desafios de cada um, e por isso, a razão de toda essa energia positiva que tens para ser a mulher mais inteligente que desafia a ciência para o bem estar das comunidades. Que mais mulheres sejam como tu pois creio que dariam outro e melhor destino ao mundo.
    Muita força Bia e que Deus esteja sempre contigo e família que tanto te adora. Estou sinceramente gostando do teu blog.

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    1. Muito obrigada querida! Me recordo que já te dei muitos puxões de orelha, mas tens ouvido a todos!!! Muita força na tua nova etapa!!! Já te viste nesta publicação? 😉

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  2. Bom dia Beatriz Manuel
    Muitos parabéns por essa força que você tem!
    Como percebi que se deve interessar por assuntos relacionados com a saúde materna e infantil eu deixo aqui um website dum projeto em Portugal que eu coordeno nos serviços públicos e que sei que tem algumas pessoas inscritas de Moçambique (www.janela-aberta-familia.org) . A ideia é apoiar os pais na educação dos seus filhos, o que é, no fundo, aquilo que é mais importante para o futuro de uma nação!

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